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domingo, 16 de setembro de 2012

Pé na bunda

Quem nunca levou um?!? Ah, eu vários!... Estou curada de um levado no ano passado, aliás... "I get along without you very well", já diria o Hoagy Carmichael, lá pelos idos de 1939, início da Segunda Guerra Mundial...

O pé na bunda, aliás, desperta na gente o que há de mais primitivo, parafraseando o Roberto Jefferson ao se referir ao José Dirceu. Acumula-se uma represa de sentimentos, que, mais cedo ou mais tarde, se rompe e transforma a nossa vida num verdadeiro rio de lágrimas. Um dos mais, senão o mais recorrente, é o desejo de vingança, de ver o outro lado se estrepar e vir correndo chorar as pitangas no seu ombro caído, mas cheio de orgulho, para que você possa ter o prazer de colocar o dedo nas feridas, e mais ainda, ditar, daquele ponto em diante, as regras e o rumo do relacionamento...

Meu Divo, o Evandro Santo (http://www.evandrosanto.com.br), costuma dizer que "Uma das maiores loucuras de amor é acreditar que ele é para sempre". E, quando ele se acaba, "iniciam-se outras coisas: terapia, macumba, vingança, chantagem, processo"... E ele diz mais! Que "... relacionamentos acabam, amores acabam, tudo acaba e é um direito de cada um acabar o que quiser."



"Mas claro que você pode sentir ódio.
Claro que você pode chorar por dentro, por fora, você pode disfarçar, você pode neutralizar com remédios, bebidas, sexo, mas seu coração sabe o que acontece.
A ciência, a tecnologia e a religião sempre inventam meios de diminuir as dores do amor. Até conseguem.
Mas sobra a memória, as lembranças, que ficam ilustrando os seus dias, até que elas vão se apagando e você seja capaz de dizer novamente:
Eu me apaixonei de novo!!!"
Isso nem sempre acontece. Mas, enquanto há vida, e a carta do Mundo na casa das Transformações, a gente vai tentando, experimentando...
Falando em lembranças, é claro que todo pacote pé-na-bunda vem com lágrimas, chocolates e música, que é o objetivo principal deste post. Primeiro, deixa eu explicar por que: participo, no Facebook, do "Desafio Musical dos 250 dias" e o de hoje, exatamente o de número 229, pede um exemplo de música para dar pé na bunda. Pensei em tantas opções, mas acabei postando seis. E são elas que compartilho com vocês a partir de agora, em ordem inversa de preferência:

6º lugar - It's too late, by Carole King
É a primeira música do álbum "Tapestry", de 1971 e a letra foi escrita por Toni Stern. Diz mais ou menos assim, em seu refrão:
"And it's too late, baby,
(E é muito tarde, baby,)
Now it's too late,
(Agora é tarde demais.)
Though we really did try to make it.
(Embora nós tenhamos realmente tentado)
Somethin' inside has died
(Algo dentro de mim morreu)
And I can't hide and I just can't fake it 
(E eu não posso esconder nem fingir...)"

Resumindo: os dois estavam tentando levar um relacionamento já desgastado quando ela finalmente decide dar um ponto final à história. Música gostosa, daquelas pra ouvir no "Tribuna Internacional", na hora do almoço, aqui em Recife.



5º lugar - Do You Remember, by Phil Collins

Do álbum "... But Seriously", de 1990. Escrita pelo próprio Phil Collins. A música toda é linda, mas eu gosto, particularmente, deste trecho:

"There seemed no way to make up,
(Parecia que não tinha mais jeito de fazer as pazes)
'Cause it seemed your mind was set
(Porque você já tinha tomado a sua decisão)
And the way you looked it told me,
(E o modo como você me olhou me disse)
It's a look I know I'll never forget
(É um olhar que eu sei que jamais esquecerei)
You could've come over to my side,
(Você poderia ter ficado do meu lado)
You could've let me know
(Poderia ter me deixado saber)
You could've tried to see the distance between us
(E tentado ver a distância entre nós)
But it seemed to far for you to go
(Mas pra você era distante demais pra percorrer)
Do you remember?
(Você se lembra?)"

Resumo da ópera: A música é fala do término de um relacionamento da perspectiva do cara, diante da negligência da sua companheira.


4º lugar - It's over, by Level 42

Essa é de 1987, do álbum "Running The Family". Esta, ao contrário das outras, é um pedido de perdão de um cara que está indo embora por não amar mais a mulher. Não houve briga, traição, nem nada, muito pelo contrário, ele é muito grato a ela por tudo o que lhe proporcionou, mas simplesmente não pode continuar fingindo algo que não sente. Belíssima canção, belíssima melodia.

"You gave me everything
(você me deu tudo)
and now I'm breaking your heart
(E agora eu estou partindo seu coração)
you know that I don't mean
(Você sabe que eu não quero)
to tear your world apar
(Destruir o seu mundo)"




3º lugar - Separate Lives, by Phil Collins.

De 1985, esta música, gravada por Phil Collins and Marilyn Martin, faz parte da trilha sonora do filme "O Sol da Meia-Noite", estrelado pelo bailarino russo Mikhail Baryshnikov. Depois de dar um pé-na-bunda, a mocinha se arrepende e vai atrás do cara. Só que ele tem o seu orgulho, e diz que não é bem assim que a banda toca. Confira no trecho abaixo:

"You have no right to ask me how I feel
(Você não tem o direito de me perguntar como me sinto)
You have no right to speak to me so kind
(Você não tem o direito de falar comigo com tanta gentileza)
We can't go on, holding on to ties
(Não podemos continuar tão apegados)
So for now we'll going on living separate lives
(Por isso agora seguiremos nossas vidas separadas)"



2º lugar - Why, by Annie Lennox

Música linda dessa escocesa, gravada em 1992, foi trilha sonora de uma novela das seis, "Despedida de Solteiro", em que a mulher, já cheia do mala sem alça que tem em casa, despeja tudo na lata. Só a tradução da última estrofe pra vocês sentirem o drama:


"Este é o livro que nunca li

Estas são as palavras que nunca falei
Esta é a trilha que nunca seguirei
Estes são os sonhos que passarei a sonhar
Esta é a alegria que é raramente compartilhada
Estas são as lágrimasas lágrimas que derramamos
Este é o medoEste é o pavorIsto é o que há na minha cabeça
Estes são os anos que passamos junto
sE isto é o que eles representamE isso é o que eu sinto
Você sabe como me sinto?
Porque eu acho que você não sabe
Eu não acho que você sabe como eu me sinto
Eu não acho que você sabe como eu me sinto
Você não sabe como me sinto..."


Um desabafo e tanto.

1º lugar - Don't ask me why, by Eurythmics

De 1989, escrita pela Annie e pelo seu parceiro de Eurythmics, David Stewart. Esta é perfeita, e resume bem aquilo que eu disse nos parágrafos iniciais, sobre o sentimento de vingança, de desforra. Vilipendiada por um parceiro negligente, mulher sente que o relacionamento está desgastado, e que ela não o ama mais. Joga na cara dele toda a sua indignação, a sua revolta por ter sido ela a única que queria que desse certo.

"Por quê?
Você diz - por quê?
Você diz - por quê?
Não me pergunte porquê
Eu não te amo mais
Eu não acho que amei
E se você teve algum tipo de amor por mim
Você manteve tudo bem escondido..."



Acho que é isso.

Se vocês quiserem contribuir com o post, fiquem a vontade, postando as músicas de pé-na-bunda que vocês mais gostam.

- By Melonella - 





quarta-feira, 27 de abril de 2011

To Be Or Not To Be - Parte II



HAMLET: Ser ou não ser... Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes Morrer... dormir... mais nada... Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. Morrer.., dormir... dormir... Talvez sonhar... É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando alfim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos. É essa idéia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se não por temer algo após a morte - terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou - que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados? De todos faz covardes a consciência. Desta arte o natural frescor de nossa resolução definha sob a máscara do pensamento, e empresas momentosas se desviam da meta diante dessas reflexões, e até o nome de ação perdem. Mas, silêncio! Aí vem vindo a bela Ofélia. Em tuas orações, ninfa, recorda-te de meus pecados.

OFÉLIA Como tem passado, príncipe, no correr de tantos dias?

HAMLET: Muitíssimo obrigado; bem, bem, bem.

OFÉLIA: Tenho algumas lembranças suas, príncipe, que há muito devolver eu desejara; receba-as, por favor.

HAMLET: Eu, não; eu, não; eu nunca te dei nada.

OFÉLIA: O príncipe bem sabe que é verdade, e com palavras de tão doce anélito, que o valor dos presentes aumentava. Mas, evolado o aroma, agora os trago. Os brindes se empobrecem, para uma alma bem-nascida, de par com os sentimentos de quem os dá. Ei-los aqui, meu príncipe.

HAMLET: Ah! Ah! És honesta?

OFÉLIA: Como assim, príncipe?

HAMLET: És bela?

OFÉLIA Que quer dizer Vossa Alteza com isso?

HAMLET: É que se fores, a um tempo, honesta e bela, não deves admitir intimidade entre a tua honestidade e a tua beleza.

OFÉLIA Mas, príncipe, poderá haver melhor companhia para a beleza do que a honestidade?

HAMLET: Realmente, que a beleza, com o seu poder, levaria menos tempo para transformar a honestidade em alcoviteira do que esta em modificar a beleza à sua imagem. Já houve época em que isso era paradoxo; mas agora o tempo o confirma. Cheguei a amar-te.

OFÉLIA: Em verdade, o príncipe me fez acreditar nisso.

HAMLET: Não deverias ter-me dado crédito, porque a virtude não pode enxertar-se em nosso velho tronco, sem que deste não remanesça algum travo. Nunca te amei.

OFÉLIA: Tanto maior é a minha decepção.

HAMLET: Entra para um convento. Por que hás de gerar pecadores? Eu, de mim, considero-me mais ou menos honesto, mas poderia acusar-me de tais coisas, que teria sido melhor que minha mãe não me houvesse dado à luz. Sou orgulhoso, vingativo, cheio de ambição, e disponho de maior número de delitos do que de pensamentos para vesti-los, imaginação para dar-lhes forma, ou tempo para realizá-los. Para que rastejarem entre o céu e a terra tipos como eu? Todos somos consumados velhacos; não deves confiar em ninguém. Toma o caminho do convento. Onde se encontra teu pai?

OFÉLIA: Em casa, alteza

HAMLET: Que lhe fechem as portas, a fim de impedirem que faça papel de tolo, a não ser em sua própria casa. Adeus.

OFÉLIA: Ajuda-o, céu de bondade.

HAMLET: Se tiveres de casar, dou-te por dote a seguinte maldição: ainda que sejas casta como o gelo e pura como a neve, não escaparás à calúnia. Vai; entra para o convento; adeus. Ou então, se tiveres mesmo de casar, escolhe um néscio para marido, porque os assisados sabem perfeitamente em que monstros as mulheres os transformam. Para o convento, vai; e isso depressa. Adeus.

OFÉLIA: Poderes celestiais, restituí-lhe a razão!

HAMLET: Conheço muito bem vossas pinturas; Deus vos deu um rosto e arrumais outro; andais aos pulinhos e com requebros, falais cheias de esses e dais nomes indecentes às criaturas de Deus, fazendo vossa leviandade passar por inocência. Vai; não insisto, porque foi isso que me deixou louco. O que digo é que não teremos casamentos; os que já são casados, com exceção de um, hão de continuar vivos; os de mais, prosseguirão como estão. Para o convento; vai!


(Sai.) OFÉLIA: Que nobre inteligência assim perdida!

O olho do cortesão, a língua e o braço do sábio e do guerreiro, a mais florida esperança do Estado, o próprio exemplo da educação, o espelho da elegância, o alvo dos descontentes, tudo em nada! E eu, a mais desgraçada das mulheres, que saboreei o mel de suas juras musicais, ter de ver essa admirável razão perder o som, qual sino velho, essa forma sem par, a flor da idade, fanada pela insânia! Ó dor sem fim! Ter já visto o que vi, e vê-lo assim!

 
Now listening: No Good For Me, by The Corrs.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Perfeita em vão - Por corramarry.com


E lá está você anotando no caderninho mental tudo o que aquela pessoa gosta, quer e espera de alguém, e sendo. Sendo aquilo que você faz força para ser, porque você sabe que ser apenas você mesma, é ser alguém que troca os pés pelas mãos e que sempre acaba boicotando suas próprias vontades. Ser você mesma é o que há de mais imperfeito em toda sua essência.

Lá está você sendo perfeita em vão, sendo perfeita para que ninguém veja, sendo perfeita para alguém que não precisa da sua perfeição. Você se esforça ao seu máximo, mas a sua perfeição e o seu máximo nunca são o suficiente.

E cansa. Cansa demais demorar um mês inteiro para ser perfeita, e em questão de segundos ser jogada o mais longe possível. Cansa demais se perguntar onde tudo desandou. Cansa demais não aceitar que tudo tenha desandado. Cansa demais se culpar, culpar os outros, culpar alguém. Cansa demais ser perfeita em vão.

Você finge que não se importa, e isso também cansa demais. Você tenta não esperar nada, mas você ainda está parada na mesma estrada em que te deixaram esperando por alguém que não vai voltar. Mas você continua a esperar. E então o bichinho da esperança começa a ser esmagado pelos dias de espera. Dias que viram semanas e semanas que viram meses, e você se recusa a esperar que os meses virem anos. Mas essa espera já não depende mais de você. Essa espera depende daquilo que você abafou por tanto tempo com a sua enorme vontade de ser perfeita.

E que merda é ser perfeita. Que merda é esconder os erros do outro debaixo do tapete, mas se martirizar por um vida inteira pelos seus. Que merda ter que aceitar que acabou. Que merda ter que dar a volta por cima. Que merda não achar o botãozinho interno que decretaria o fim, sem volta, sem retorno, sem a bosta de esperança. Que merda não conseguir ser perfeita para você mesma.

As pessoas caem nas frases feitas, nas ilusões criadas por elas mesmas, nos medos mais internos e em suas enormes vontades nunca saciadas. Porque dessa vez pode ser diferente. Dessa vez, você se preparou. Mas a verdade é que quando a dor diz “Querida, cheguei”, todo o preparo sai pela porta dos fundos.

Now listening: Everybody Hurts, by R.E.M

domingo, 27 de março de 2011

Liz Taylor said... (1932 - 2011)

"Sou um exemplo vivo do que as pessoas são capazes de fazer para sobreviver. Mas não sou uma qualquer. Sou eu."

Sobrevivendo...

"Naquela noite, tivemos um sinal de alarme. Mais tarde, descobri que se tratava apenas de uma batida de reconhecimento nos arredores, mas não sabia disso enquanto estava em ação, e tampouco os outros sabiam. O campo de pouso já fora atingido antes pelos sapadores. Pessoas haviam morrido, diversos aviões e helicópteros tinham ido pelos ares. Podia acontecer outra vez. A gente só fica sabendo que um ataque é 'apenas uma batida de reconhecimento' depois que termina. Fiquei de pé, do lado de fora, ao lado de outros soldados recém-chegados e observava homens berrando, correndo seminus em várias direções. Caminhões passavam em alta velocidade, alguns com luzes giratórias iguais às dos carros-patrulha da polícia. Por entre estridentes e nervosos disparos de M-16, eu podia ouvir o matraquear de metralhadoras pesadas, num som profundo e metódico. Clarões irrompiam no alto. Recobriam tudo com uma luz fria, trêmula.

Ninguém vinha nos dizer o que estava acontecendo. Não tínhamos recebido nosso equipamento de combate, portanto não possuíamos armas, munições, coletes à prova de balas, nem sequer um capacete de aço. Estávamos indefesos. E ninguém sabia nem se importava com isso. Haviam se esquecido de nós - ou, para ser mais exato, haviam se esquecido de mim. Naquele lugar todo, não havia uma única pessoa pensando em mim, pensando assim, meu Deus, é melhor eu ir até lá dar uma olhada e ver se está tudo bem com o Tenente Wolff! Não. Eu não estava no pensamento de ninguém. E compreendi que isso era verdade não só ali mas em todo e qualquer centímetro quadrado daquele país. Não havia uma única pessoa ali preocupada em saber se eu estava vivo ou morto. Talvez alguns corações mais brandos se importassem, em abstrato, mas era meu destino ser um indivíduo concreto e, como indivíduo, havia, a meu respeito, um indiscutível e completo desinteresse.


Não é verdade que ninguém se importava. Eu me importava. Aos meus olhos, parecia que eu dava importância excessiva, mais do que seria decente ou adequado a um homem. Podia sentir minha vida quase como se fosse uma coisa à parte, suplicando que eu a protegesse."


Now listening: Alive and Kicking, by Simple Minds.

(Extraído de "No Exército do Faraó - Memórias da guerra perdida, de Tobias Wolff)

terça-feira, 15 de março de 2011

quinta-feira, 10 de março de 2011

Amar pela metade, ou amar sem medida?

Gonzaguinha era, sem dúvida, um compositor genial. Visceral. E compôs uma obra prima chamada "Mulher, e daí?". Acabei achando enquanto procurava alguma letra que expusesse ao mundo as minhas próprias chagas de um coração partido... sim, meus dignos cinco leitores (talvez a demora em atualizar o blog esteja provocando uma evasão em massa dos meus leitores), expor ao mundo, e o que é que tem? Não tem essa de se fazer de coitadinha não... é que não consigo fingir estar tudo bem quando não está tudo bem. "Don't say you're up when you're down, it's Elemental!", já dizia o bom e velho Orzabal!

Quanto se ganha amar pela metade, ou amar sem medida? Quanto se perde?

Quanto se preserva amando superficialmente, comendo pelas beiradas, quando o momento pede para que você sorva a presença ou a ausência em grandes goles até que isso venha a sufocar, a sangrar, a arrebentar, como um ferimento de dentro pra fora...

E aí, a ilusão termina. Acho que li isso no horóscopo do meu signo ascendente, hoje.

Mulher e daí?

Acima de tudo, mulher. Não sei criar personagens. Já dá trabalho demais ser quem sou.

- By Melonella -

domingo, 9 de janeiro de 2011

Agreste

Sempre quis escrever algo sobre a região que para mim é muito mais do que um local de trabalho. É o meu refúgio particular. É onde meus olhos se perdem pela paisagem por vezes árida, por vezes fértil. "This used to be my playground", já cantava a Madonna.

Primeiro vamos à aula de Geografia...
Segundo o Wikipédia, a mesorregião do Agreste Pernambucano é uma das cinco mesorregiões do estado brasileiro de Pernambuco, estendendo-se por uma área aproximada de 24400 km², inserida entre a Zona da Mata e o Sertão. Representa 24,7% do território pernambucano e conta com uma população de cerca de 1,8 milhões de habitantes (25% da população do Estado). O clima é predominantemente semi-árido, embora apresente áreas mais úmidas.

Igualzinho a mim. Os dias são ensolarados na maior parte do tempo, mas quando desaba a tempestade...

Esta foto foi tirada por Anderson Carvalho. Traz um belíssimo por-do-sol e as torres de telefonia sobre o Morro do Bom Jesus, em Caruaru.
Now listening: "This Used To Be My Playground" by Madonna. 


sábado, 8 de janeiro de 2011

Escolhas...

Já era cedo quando eu secava e domava as minhas madeixas rebeldes no salão. O rádio estava sintonizado numa emissora evangélica, cujo som era abafado pelo barulho do secador. Absorta em minha própria impaciência em ver acabar todo aquele martírio, ouvi uma frase, que foi exaustivamente repetida pelo locutor enquanto pregava o evangelho: "O homem faz suas escolhas e as escolhas fazem o homem".

A frase foi forjada na minha cabeça como o ferro é forjado através do calor e de golpes constantes do martelo contra uma bigorna. Sim, é verdade. O homem faz suas escolhas. Você, meu nobre leitor fez as suas escolhas, e não falo sobre a escolha entre tomar um sorvete de kiwi ou de jiló (e fatalmente recaio sobre isso). Sem dúvida você escolheu sacrificar seu sábado para estudar um pouco mais aquela matéria em que você ficou em recuperação, ou para cuidar de um ente querido. Ou escolheu passar o final de semana em Porto de Galinhas e atrasou aquele trabalho importante pra ser entregue numa segunda-feira. Pagou o ônus e recebeu os bônus por cada direcionamento dado à própria vida.
Escolhi a estabilidade e segurança da minha família, desta vez.  Escolhi não cometer o mesmo erro duas vezes. Se as escolhas me farão no futuro, só tempo é quem dirá.

"Maybe we'll be again, somewhere, again...", já dizia uma balada de amor antiga.

Now listening: Carrie, by Europe. "Things may change, my friend..."

quinta-feira, 24 de junho de 2010

"That's the price of love", já cantava o New Order...

Ah, sim! Apaixonar-se é sim, confrontar a si mesmo, todos os dias. Confrontar-se com a sua razão, questionar diariamente os seus valores, principalmente quando o castelo de cartas se desfaz diante de seus pés, e aquilo que você tinha como sendo a sua verdade se torna tão efêmero quanto é, em si, o fôlego da vida.

E, como tomados de um torpor, ébrios de paixão, nem hesitamos pagar o preço... the price of love, como canta o vocalista do New Order, famosa banda de sinth pop dos anos 80/90, em "World".

Como há muito não acontecia, paguei o preço por acreditar ser, a minha paixão da vez - sim, da vez! Acredito, piamente, que a minha vida amorosa respeita uma certa sazonalidade: há o período em que me apaixono pelos cafajestes, pelos canalhas, pelos certinhos demais, e agora, pelos gays! - perfeitamente viável. E esbarro na impossibilidade do impossível, e na dor da decepção em perceber o ser amado bem distante das suas próprias expectativas. Às vezes pintamos o quadro beeeeem diferente da moldura que o acolherá. Às vezes a moldura é mais bonita do que o conteúdo. Às vezes desvalorizamos a gravura dando a ela uma moldura mesquinha, vagabunda.

"Cause I was wrong", canta agora em meu CD player, a minha diva Tracey Thorn (meu alter ego). Ah, Tracey, I was wrong too. Unfortunatelly.

"And you started laying down the law
Til I didn't love you anymore..."
 
Puff!!!!

sábado, 27 de março de 2010

Careless Whispers



Hoje eu tive um sonho.

Nele não havia imagens. Apenas a sua voz, cantarolando baixinho, como você costuma fazer. Sabe que adoro prestar atenção quando isso acontece? Você canta, como se fosse proibido, como se estivesse com medo de ser descoberto, de ser notado, ou de incomodar alguém... é um momento assim tão, delicado, tão... tão você! Nesses momentos, é impossível não imaginar você me confidenciando seus segredos, falando baixinho, de olhos fechados...

... voltando ao sonho, era como se você cantasse uma canção de ninar, numa rede preguiçosa, numa tarde preguiçosa e nublada de domingo. Minha cabeça recostada em seu peito, ouvindo as batidas firmes e compassadas do seu coração, nossas respirações no mesmo ritmo, enquanto a sua voz me embala num sono tranquilo...

Devaneios, ah, meus devaneios... tão improváveis quanto a realização deste sonho.

Definitivamente a gente não escolhe de quem é que vai gostar. Ah, coração vagabundo leviano!

Now listening: Deve ser, by Jorge Vercilo.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Lichia!

Amo lichia. Comi pela primeira vez no final de 2008, e desde então, fico louca que chegue logo a safra, pra eu poder comer de montão.



Já pensou eu com um pomar cheio de lichieiras, carregadinhas como essa aí?!? UIA!!!!

Mas o que danado é lichia, alguém pode então me perguntar...

A lichia é uma fruta pouco conhecida pelos brasileiros. O cultivo no Brasil iniciou-se há pouco tempo, sendo antes encontrada apenas como um produto importado da China, Tailândia, Índia e Estados Unidos. Ela possui uma casca grossa e avermelhada e um sabor adocicado. O seu conteúdo nutricional é excelente, possui poucas calorias, muita água e é rica em antioxidantes.Um recente estudo demonstrou que a lichia é capaz de reduzir a gordura abdominal.

Qual é gosto que tem?

Tem gosto de beijo.

É. Aquele beijo gostoso, molhado, adocicado, suculento, desses em que as línguas vão se entrelaçando, se descobrindo, se provando...

Já que não tenho boca pra beijar, essa já é a segunda caixa que vai embora enquanto posto essas bobagens...

Now listening: Clean heart, by Sade Adu.


P.S.: Acredito que ninguém vai me taxar de hedonista só por conta da comparação que fiz da lichia com o beijo...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Os lilases de Hossegor - Parte III




"A casa de Juliette Desrochelles está localizada debaixo de árvores, sobre uma colina, bem pertinho dali, de pedra cinza, com telhado de telhas chatas, com um jardinzinho pequeno e um quintal maior. Tem muitas flores.

Quando Mathilde está na casa, sentada em seu carrinho, depois que terminam as súplicas, as lágrimas e as besteiras, ela pede a Juliette Desrochelles, sua futura sogra, que a empurre até o quintal, onde Manech está pintando, e que a deixe sozinha com ele por um instante. Ele foi avisado da visita. Disseram-lhe que uma moça que ele amou muito vem vê-lo. Ele pergunta seu nome, que acha bonito.

Quando Juliette Desrochelles e Sylvain se retiram, Mathilde está a vinte passos dele. O cabelo dele está negro, todo cacheado.Parece-lhe mais alto do que ela se lembrava. Ele se encontra diante de uma tela, sob um alpendre. Ela fez bem de não pintar os cílios.

Tenta aproximar-se dele, mas o caminho é de cascalho, difícil. Então ele vira a cabeça para ela e a vê. Deixa o pincel e se aproxima, e quando mais ele se aproxima, quando mais ele se aproxima, mais ela pensa que bom que não estou com os cílios pintados, ela não quer chorar mas é mais forte que ela, uma hora ela só o vê aproximar-se através das lágrimas. Enxuga-as depressa. Olha para ele. Está parado a dois passos. Ela poderia estender a mão, ele se aproximaria ainda mais, ela o tocaria. Ele está igual, mais magro, mais lindo que todos, com olhos como Germain Pire descreveu, de um azul muito pálido, quase cinza, tranquilos e doces, com algo no fundo que se debate, uma criança, uma alma massacrada.

Tem a mesma voz de antes. A primeira frase que ela ouve dele, é terrível, ele pergunta: 'Você pode caminhar?'

Ela mexe com a cabeça para dizer que não.

Ele suspira, volta à sua pintura. Ela empurra as rodas, aproxima-se do alpendre. Ele torna a voltar os olhos para ela, sorri. Diz: 'Quer ver o que estou fazendo?'

Ela mexe com a cabeça para dizer que sim.

Ele diz: 'Vou te mostrar daqui a pouco. Mas não já, ainda não está pronto.'

Então, enquanto isso, ela se encosta bem ereta em seu carrinho, cruza as mãos sobre os joelhos, fica olhando para ele.

Sim, olha, olha, a vida é longa e ainda pode carregar muito mais nas costas.

Fica olhando para ele."

Fim.


Now listening: No Good For Me, by The Corrs.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Post Musical III



Dreams
The Corrs
Composição: Stevie Nicks

Now here you go again you say you want your freedom
Well who am I to keep you down
It's only right that you should play the way you feel it
But listen carefully to the sound

Of your loneliness
Like a heartbeat drives you mad
In the stillness of remembering what you had
And what you lost
And what you had
And what you lost

Thunder only happens when it's raining
Players only love you when they're playing
yeh, women they will come and they will go
When the rain washes you clean you'll know, you'll know

Now here I go again, I see the crystal visions
I keep my visions to myself
It's only me who wants to wrap around your dreams and
Have you any dreams you'd like to sell

Dreams of loneliness...
Like a heartbeat drives you mad
In the stillness of remembering what you had
And what you lost

Thunder only happens when it's raining
Players only love you when they're playing
yeh, women they will come and they will go
When the rain washes you clean you'll know, you'll know

Os lilases de Hossegor - Parte II

"Dizem que as amizades que começam mal são as mais infectantes. Bénédicte e Sylvain, e até Cochicho, que mal fez um ano, logo pegaram o vírus. Quase todos os dias, Bénédicte serve o lanche. Acha bem-educadas as crianças que têm apetite. Sylvain reconhece Manech, que vai terminar o primeiro grau dali a dois anos, tem o mérito de ajudar o pai na pesca, e a mãe, que é de saúde frágil, em todos os trabalhos.

(...)

O primeiro verão, o segundo. Parece a Mathilde que foi no segundo que ela se decidiu aprender a nadar. Manech fabricou bóias de cortiça para prender seus tornozelos e foi entrando no lago, com ela agarrada em seus ombros. Ela não lembra de ter sofrido. Tinha uma sensação de alegria e de gratidão para consigo mesma como raramente sentiu. Era capaz de flutuar, de avançar, deitada de barriga, só com os braços, e até mesmo, só com os braços, de virar de costas e continuar nadando.




(...)

E no oceano, o grande, o aterrorizante oceano de ondas de estrondo, explosões de neve e de pérolas, Mathilde também entra, agarrada ao pescoço de Manech, sufocando-o, estrangulando-o, gritando de pavor e de prazer a não mais poder, empurrada, afogada, machucada, mas sempre louca para voltar lá.

Na hora de subir as dunas, na volta do banho, com Mathilde às costas, Manech não aguenta, chateia-se consigo mesmo por precisar parar e colocá-la na areia para recuperar o fôlego. Foi ali, em uma parada forçada, durante o verão de 14, alguns dias antes da guerra, que Mathilde, querendo beijá-lo no rosto para confortá-lo, deixa deslizar os lábios e, com a ajuda do capeta, beija-o na boca. Toma gosto pela coisa tão depressa que se pergunta como pôde esperar tanto tempo e ele, ora essa, fica vermelho até as orelhas, mas ela sente que ele não detesta a novidade."


(continua)


Now listening: Smoke gets in your eyes, by The Platters.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009




"Mais qui est ce qui m'a dit que toujours tu m'aimais?
Je ne me souviens plus c'était tard dans la nuit,
J'entend encore la voix, mais je ne vois plus les traits
'il vous aime, c'est secret, lui dites pas que j'vous l'ai dit...'"

Os lilases de Hossegor




"Junho de 1910.
Mathilde tem dez anos e meio. É sexta ou sábado, ela não se lembra mais. Manech tem treze anos desde o dia 4. Está voltando da escola, de calças curtas e casaco de marinheiro, com a pasta nas costas. Pára diante da grade que circunda o jardim de Poema. Vê Mathilde pela primeira vez, sentada em seu carrinho do outro lado.

Por que ele passa na frente da villa naquela tarde, mistério. Mora além do lago de Hossegor, não tem razão alguma para fazer esse desvio. Seja como for, está ali, olha para Mathilde através das grades e depois pergunta: 'Você não pode andar?'

Mathilde faz sinal que não. Ele não acha nada a dizer, vai embora. Um minuto depois, volta. Parece chateado. Pergunta: 'Você não tem amigos?' Mathilde faz sinal que não. Ele diz, olhando para outro lado, achando aquilo muito difícil: 'Se concordar, quero ser seu amigo.' Mathilde faz sinal que não. Ele levanta a mão acima da cabeça, exclamando: 'Ah, merda!' e vai embora.

Desta vez, ele passa pelo menos três minutos sem revê-la. Quando aparece de novo do outro lado das grades, sabe Deus o que fez da pasta, está com as mãos nos bolsos, faz cara de tranquilo e útil. Diz: 'Sou forte. Poderia carregar você nas costas o dia inteiro. Sabe, eu poderia até te ensinar a nadar.' Diz: 'Eu sei como. Com bóias para segurar seus pés lá em cima.' Ela faz sinal de que não. Ele infla as bochechas e sopra o ar. Diz: 'Vou pescar com meu pai, no domingo. Eu poderia trazer uma merluza grande assim para você!' Mostra com os braços um peixe como uma baleia. 'Gosta de merluza'? Ela faz sinal que não. 'De carpa?' Mesma coisa. 'De pata de siri? A gente traz um monte mas redes.' Ela gira a cadeira e empurra as rodas, é ela que se afasta. Ele grita pelas costas dela: 'Parisiense, vai! E eu que ia me deixar fisgar. Será que eu tenho muito cheiro de peixe para você, é?' Ela dá de ombros, ignora-o, faz as rodas girarem o mais rápido possível em direção à casa. Ouve Sylvain que eleva a voz em algum lugar do jardim: 'Então, seu engraçadinho, quer levar um pontapé no traseiro, é?'

(...)

Ele volta na tarde seguinte, na mesma hora. Ela espera. Dessa vez, ele se senta na mureta, do outro lado da grade. Por um tempo, não olha para ela. Diz: 'Tenho uma porção de amigos em Soorts. Não sei por que me incomodo por sua causa.' Ela pergunta: 'É verdade que você saberia me ensinar a nadar?' Ele faz que sim com a cabeça. Ela aproxima o carrinho, toca suas costas para que ele olhe para ela. Ele tem os olhos azuis, o cabelo preto todo cacheado. Apertam cerimoniosamente as mãos através das grades."

(continua)

Extraído de  "Um domingo para sempre", de Sébastien Japrisot.

Now listening: Quelqu'un m'a dit, by Carla Bruni.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Desejo

Esta é uma poesia de uma artista pernambucana chamada Regina Helena. Gostei tanto que coloquei no meu perfil, no orkut, e estou postando aqui.




"Que o meu amor seja o porto e o mar,
Que seja uma torrente de vida constante e perfeita,
Que seja o companheiro franco e sincero,
Que seja o cuidado que não oprime, a vontade profunda,
O princípio de largos limites, a extrema confiança,
Que seja a explicação do secreto,
E a verdade traduzida em olhares, sorrisos e gestos,
Que meu amor seja a complacência benigna da existência
Um jato de luz carregado de esperanças,
Voz de Deus flutuando nos ventos,
Que seja renovação, visão de vida nova, precisão e calma,
Que seja perspectiva, responsabilidade, execução,
Que seja a aceitação do inevitável, dominância, apaziguamento,
Que seja generosidade e festival de afeição que se agiganta,
Que seja o único brilho do desejo,
o cântico e a doçura do beijo,
E no total de um ardor que seja
intensa e simplesmente amor."

Now listening: Heroes and Saints, by Nikolaj Grandjean. Melancólica e intensa.