Mostrando postagens com marcador Literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Literatura. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Sopas - Por Rubem Alves




"Se Deus me dissesse para escolher a comida que eu iria comer no céu, por toda a eternidade, eu não teria um segundo de hesitação: escolheria sopa. Camarão, picanha maturada, salmão à Dali, os pratos mais refinados: tudo me seria insuportável após umas poucas repetições. Mas não é assim com as sopas. Posso tomar sopa por toda a eternidade, sem me cansar.

Minha relação com as sopas é mais que gastronômica: é uma relação de ternura. Elas me reconduzem à cozinha de minha casa de menino, ao fogão de lenha, às tardes de inverno. A janta (janta, mesmo; jantar é coisa de rico) era servida às 5 da tarde. Ah! Uma sopa quente que se toma numa tarde fria é uma lareira que se acende no estômago. O calor, aos poucos, se espalha pelo corpo. Com umas gotinhas de pimenta, então, ele se transforma em suor, e se a gente não usa o guardanapo a tempo, as gotas de suor na testa acabam por cair no prato da sopa...

Para mim a sopa é um sacramento de intimidade: um objeto físico, presente, no qual vive uma felicidade que se teve, ausente. A sopa quente me transporta para outros lugares, outros tempos. Faço e gosto de sopas frias. Sopa fria de maçã, por exemplo, tem um sabor exótico. Agrada-me ao paladar. Mas falta a essas sopas sofisticadas o elemento sacramental: elas não me levam a lugar algum. Falta-lhes o calor para me reconduzir ao espaço de intimidade.

Sopa é comida de pobre. Sopa fina, creme de aspargos, creme de palmito, sopa gelada de maçã, é nobreza posterior. As sopas fundamentais se fazem com sobras. Sobra, é só pobre quem guarda. Sopa é comida de guerra, de fome, quando qualquer raspa de comida é bem precioso, que não pode ser perdido. Rico não guarda sobra. Não precisa. É humilhante. Sobra de rico vai para o lixo. Sobra de pobre vai para o caldeirão de sopa. As sopas fundamentais se fazem com sobras, destinadas ao lixo. A sopa é uma poção mágica por meio da qual o que estava perdido é salvo da perdição e reconduzido à circulação da vida e do prazer.

A imaginação de Bachelard diz que a matéria também imagina. A água imagina arcos-íris. As sementes imaginam flores e árvores. O mármore imagina ‘Beijos’ (Rodin) e Pietás (Miguel Ângelo). O rios imaginam nuvens (Heládio Brito). As comidas também imaginam. O churrasco imagina espetos, facas, garfos: objetos fálicos, masculinos, infernais. O churrasco precisa de perfurações, cortes, dilacerações. As mandíbulas lutam com a carne. A carne resiste.

Já a sopa é mansa. Não é para ser comida. A colher é um côncavo, um vazio, o feminino. Nada é perfurado. O gesto é o de ‘colher’: a colher colhe, sem violência. Sempre tive implicância com uma etiqueta snob, para a tomação de sopa: que o delicado é tomar a sopa com o lado da colher, e não com o bico. Ora, ora - eu argumentava - por analogia a gente deveria comer comida sólida com o lado do garfo - o que não é possível. De fato. Não é possível. É que o garfo pertence à ordem dos talheres pontiagudos, perfurantes: entram pela frente. A colher pertence à ordem dos talheres discretos e modestos: entram pelo lado, mansamente...

Salvador Dali, quando menino, sonhava em ser cozinheiro. Preferiu a pintura e produziu suas maravilhosas telas surrealistas. O realismo, em pintura, se constrói sobre o pressuposto de que as coisas são aquilo que parecem ser, nem mais e nem menos. Os olhos, diante de uma tela realista, jamais experimentam a surpresa do impossível ou do impensado. O realismo confirma aquilo que os olhos comumente vêem. O surrealismo, ao contrário, acha que aquilo que os olhos comumente vêem é muito pouco: se olharmos com atenção perceberemos que as coisas são, ao mesmo tempo, o que são e também outras: elefantes se refletem nas águas de um lago como cisnes, cenários compõem o corpo erótico de uma mulher, o corpo de Cristo é transparente e através dele se vêem mares, montanhas e barcos. O realismo confirma o criado. O surrealismo recria o criado.

As sopas são a versão culinária do surrealismo. Tivesse realizado sua vocação primeira, Salvador Dali seria um especialista em sopas. Pois as sopas se fazem negando as coisas, na sua realidade natural bruta e transformando-as por meios das relações insólitas que o caldo torna possíveis. O caldo da sopa é o meio mágico que junta no caldeirão aquilo que, na natureza, nasceu separado. Creio ser impossível catalogar as combinações possíveis: fubá, trigo, batata, alho, cebola, nabo, cenoura, tomate, ervilha, ovo, abóbora, mandioca, cará, inhame, carne, peixe, galinha, mariscos, repolho, couve, beterraba, aspargo, palmito, feijão, arroz, queijo, azeitona, pão, maçã, abacate, temperos, pimentas, orégano, tandore - uma canja verdadeira não é canja se lhe faltarem algumas folhinhas de hortelã. E é preciso não nos esquecermos que sopa é a única comida que pode ser feita com pedra, como nos é relatado numa das estórias clássicas que se conta para crianças e adultos.

Gosto das sopas, ainda, por serem elas entidades do mundo dos magos, bruxas e feiticeiros. No mundo mágico não se usa churrasco. Magos, bruxas e feiticeiros fazem suas poções em enormes caldeirões de sopa, como é o caso de Panoramix, druida do Asterix e do Obelix, que prepara sua beberragem de força imbatível num caldeirão de sopa fervente.

Prefiro as sopas rústicas - e fazê-las me dá um grande prazer. A sopa de fubá em suas múltiplas versões, o caldo verde, a canja com hortelã, a multicolorida sopa de legumes: sopas são sempre uma alegria. As sopas rústicas dão permissão para se jogar nelas o pão picado. Haverá coisa mais feliz que isso? Reuno-me com alguns amigos, às 3as. feiras, para ler poesia, ao redor de um prato de sopa.

Uma última informação: sopas são remédios maravilhosos contra depressão. Quando a sopa quente, cheirosa, colorida e apimentada, bate no estômago, a tristeza se vai e a alegria volta. Não há melancolia que resista à magia de um prato de sopa... (Concerto para corpo e alma, p. 69.)"


Now listening: Nada. Só a TV, exibindo o ABTV! :) (Na foto, a minha sopa preferida, a de tomate!)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

To Be Or Not To Be - Parte II



HAMLET: Ser ou não ser... Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes Morrer... dormir... mais nada... Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. Morrer.., dormir... dormir... Talvez sonhar... É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando alfim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos. É essa idéia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se não por temer algo após a morte - terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou - que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados? De todos faz covardes a consciência. Desta arte o natural frescor de nossa resolução definha sob a máscara do pensamento, e empresas momentosas se desviam da meta diante dessas reflexões, e até o nome de ação perdem. Mas, silêncio! Aí vem vindo a bela Ofélia. Em tuas orações, ninfa, recorda-te de meus pecados.

OFÉLIA Como tem passado, príncipe, no correr de tantos dias?

HAMLET: Muitíssimo obrigado; bem, bem, bem.

OFÉLIA: Tenho algumas lembranças suas, príncipe, que há muito devolver eu desejara; receba-as, por favor.

HAMLET: Eu, não; eu, não; eu nunca te dei nada.

OFÉLIA: O príncipe bem sabe que é verdade, e com palavras de tão doce anélito, que o valor dos presentes aumentava. Mas, evolado o aroma, agora os trago. Os brindes se empobrecem, para uma alma bem-nascida, de par com os sentimentos de quem os dá. Ei-los aqui, meu príncipe.

HAMLET: Ah! Ah! És honesta?

OFÉLIA: Como assim, príncipe?

HAMLET: És bela?

OFÉLIA Que quer dizer Vossa Alteza com isso?

HAMLET: É que se fores, a um tempo, honesta e bela, não deves admitir intimidade entre a tua honestidade e a tua beleza.

OFÉLIA Mas, príncipe, poderá haver melhor companhia para a beleza do que a honestidade?

HAMLET: Realmente, que a beleza, com o seu poder, levaria menos tempo para transformar a honestidade em alcoviteira do que esta em modificar a beleza à sua imagem. Já houve época em que isso era paradoxo; mas agora o tempo o confirma. Cheguei a amar-te.

OFÉLIA: Em verdade, o príncipe me fez acreditar nisso.

HAMLET: Não deverias ter-me dado crédito, porque a virtude não pode enxertar-se em nosso velho tronco, sem que deste não remanesça algum travo. Nunca te amei.

OFÉLIA: Tanto maior é a minha decepção.

HAMLET: Entra para um convento. Por que hás de gerar pecadores? Eu, de mim, considero-me mais ou menos honesto, mas poderia acusar-me de tais coisas, que teria sido melhor que minha mãe não me houvesse dado à luz. Sou orgulhoso, vingativo, cheio de ambição, e disponho de maior número de delitos do que de pensamentos para vesti-los, imaginação para dar-lhes forma, ou tempo para realizá-los. Para que rastejarem entre o céu e a terra tipos como eu? Todos somos consumados velhacos; não deves confiar em ninguém. Toma o caminho do convento. Onde se encontra teu pai?

OFÉLIA: Em casa, alteza

HAMLET: Que lhe fechem as portas, a fim de impedirem que faça papel de tolo, a não ser em sua própria casa. Adeus.

OFÉLIA: Ajuda-o, céu de bondade.

HAMLET: Se tiveres de casar, dou-te por dote a seguinte maldição: ainda que sejas casta como o gelo e pura como a neve, não escaparás à calúnia. Vai; entra para o convento; adeus. Ou então, se tiveres mesmo de casar, escolhe um néscio para marido, porque os assisados sabem perfeitamente em que monstros as mulheres os transformam. Para o convento, vai; e isso depressa. Adeus.

OFÉLIA: Poderes celestiais, restituí-lhe a razão!

HAMLET: Conheço muito bem vossas pinturas; Deus vos deu um rosto e arrumais outro; andais aos pulinhos e com requebros, falais cheias de esses e dais nomes indecentes às criaturas de Deus, fazendo vossa leviandade passar por inocência. Vai; não insisto, porque foi isso que me deixou louco. O que digo é que não teremos casamentos; os que já são casados, com exceção de um, hão de continuar vivos; os de mais, prosseguirão como estão. Para o convento; vai!


(Sai.) OFÉLIA: Que nobre inteligência assim perdida!

O olho do cortesão, a língua e o braço do sábio e do guerreiro, a mais florida esperança do Estado, o próprio exemplo da educação, o espelho da elegância, o alvo dos descontentes, tudo em nada! E eu, a mais desgraçada das mulheres, que saboreei o mel de suas juras musicais, ter de ver essa admirável razão perder o som, qual sino velho, essa forma sem par, a flor da idade, fanada pela insânia! Ó dor sem fim! Ter já visto o que vi, e vê-lo assim!

 
Now listening: No Good For Me, by The Corrs.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

To be, or not to be...





Cena III

Um quarto em casa de Polônio.  Entram Laertes e Ofélia.

LAERTES: Tudo o que é meu já se acha a bordo; adeus. Cara irmã, se houver ventos benfazejos e navios no porto, não te ponhas a dormir: dá notícias.

OFÊLIA: E duvida-o?

LAERTES: O que respeita a Hamlet, e seu namoro, toma-o como capricho, simples moda, violeta que a estação produziu cedo, passageira e aromosa, não durável, perfume e refrigério de um minuto, nada mais.

OFÉLIA: Nada mais?

LAERTES: Isso, mais nada. Nosso corpo, ao crescer, não ganha apenas volume e músculos; o templo expande-se, e a par, também, se alarga o espírito e a alma com seu culto interior. É bem possível que te ame agora, sem que fraude alguma lhe macule a virtude do alvedrio. Mas deves ter cautela, que os de sua posição não são donos de si mesmos. Ele é escravo do próprio nascimento; não pode, como o faz gente do povo, eleger para si, que dessa escolha depende a segurança e o bem do Estado. Daí, necessitar subordiná-la ao voto e aprovação do corpo, cuja cabeça ele é. Se te disser que te ama, cumpre à tua prudência dar-lhe crédito na medida em que seja permitido passar do verbo à ação, o que mais longe não irá do que a voz da Dinamarca. Pensa na mancha, irmã, para tua honra, se desses ao seu canto ouvido crédulo e o coração perdesses, ou se abrisses o teu casto tesouro aos seus assaltos. Cuidado, irmã! Cuidado, Ofélia amiga! Fica na retaguarda dos anseios, a coberto dos botes dos desejos. Já prodigalidade é uma virgem revelar a beleza à própria lua. Da calúnia a virtude não se livra. Muitas vezes, o verme estraga as flores primaveris, bem antes de se abrirem. No orvalho e na manhã da mocidade o vento contagioso é mais nocivo. Sê cautelosa; o medo é amparo certo. A mocidade é imiga de si mesma.

OFÉLIA: Encerrarei no peito, como guardas, essas sábias lições. Mas, caro irmão, não faças como alguns desses pastores que aconselham aos outros o caminho do céu, cheio de abrolhos, enquanto eles seguem ledos a estrada dos prazeres, sem dos próprios conselhos se lembrarem.

LAERTES: Nada receies; mas é tempo; aí vem nosso pai.

(Entra Polônio.)

Dupla bênção, graça dupla. O acaso me concede este outro adeus.

POLÔNIO: Ainda aqui, Laertes? Para bordo! O vento se acha a tergo de tua vela; já te reclamam. Vai com a minha bênção, e grava na memória estes preceitos: Não dês língua aos teus próprios pensamentos, nem corpo aos que não forem convenientes. Sê lhano, mas evita abastardares-te. O amigo comprovado, prende-o firme no coração com vínculos de ferro, mas a mão não calejes com saudares a todo instante amigos novos. Foge de entrar em briga; mas, brigando, acaso, faze o competidor temer-te sempre. A todos, teu ouvido; a voz, a poucos; ouve opiniões, mas forma juízo próprio. Conforme a bolsa, assim tenhas a roupa: sem fantasia; rica, mas discreta, que o traje às vezes o homem denuncia. Nisso, principalmente, são pichosas as pessoas de classe e prol na França. Não emprestes nem peças emprestado; que emprestar é perder dinheiro e amigo, e o oposto embota o fio à economia. Mas, sobretudo, sê a ti próprio fiel; segue-se disso, como o dia à noite, que a ninguém poderás jamais ser falso. Adeus; que minha bênção tais conselhos faça frutificar.

LAERTES: Humildemente me despeço, senhor.

POLÔNIO: O tempo é curto; vai logo, que os criados já te esperam.

LAERTES: Adeus, Ofélia; guarda o que eu te disse.

OFÉLIA: Guardei-o na memória, e a chave a levas.

LAERTES: Adeus.

(Sai.)

POLÔNIO: Que palavras, Ofélia, ele te disse?

OFÉLIA: Se o permitis, falou de lorde Hamlet.

POLÔNIO: Ah, bem pensado. Já me disseram que ele te dispensa alguma intimidade e que tu própria tens sido liberal em dar-lhe ouvidos. Se é assim, de fato - o que me revelaram à guisa de advertência - devo ser-te franco: não te comportas com a prudência que compete à minha honra e à minha filha. Que é que há entre vós dois? Fala a verdade.

OFÉLIA Senhor, ultimamente fez-me muitas propostas de afeição.

POLÔNIO: Ora, afeição! Falas tal qual mocinha inexperiente do perigo de certas situações. E tu? Acreditas em tais propostas?

OFÉLIA: Não sei como pensar, meu pai, sobre isso.

POLÔNIO: Ouve, então: é preciso que não passes de um bebê, para teres recebido como moeda corrente essas propostas. Propõe agora juízo, se não queres - e a pobre frase o agüenta - para tolo me propor.

OFÉLIA: Mas senhor, sua insistência sempre foi de moral honrosa e digna.

POLÔNIO: Moral! Bela expressão. Adiante! Adiante!

OFÉLIA: E ele soube firmar os seus protestos de amor com os mais sagrados juramentos.

POLÔNIO: Conheço isso; armadilha para tordos. Sempre que o sangue ferve, à língua os votos que a alma não regateia vêm e esplendem com mais luz que calor para extinguirem-se à só promessa frustros antes do ato. Não os tomes por fogo. Doravante restringe a tua virginal presença; náo deves pôr muito elevado preço nessas propostas, como se ordens fossem para parlamentar. Enquanto a Hamlet, confia nele até este ponto: é moço, sobre dispor de corda bem mais frouxa, para andar, do que a tua. Em suma, Ofélia, descrê dos seus protestos; são agentes que desmentem a cor do hábito externo, mendigos de desejos inconfessos, que respiram candura e santidade para melhor lograrem. Novamente e em termos simples: doravante proíbo-te que sejas perdulária de teu ócio, pondo-te a conversar com lorde Hamlet.

Vê bem que o ordeno. E agora, põe-te a andar.

OFÉLIA Ser-vos-ei obediente.

Now listening: No Good For Me, by The Corrs

domingo, 27 de março de 2011

Sobrevivendo...

"Naquela noite, tivemos um sinal de alarme. Mais tarde, descobri que se tratava apenas de uma batida de reconhecimento nos arredores, mas não sabia disso enquanto estava em ação, e tampouco os outros sabiam. O campo de pouso já fora atingido antes pelos sapadores. Pessoas haviam morrido, diversos aviões e helicópteros tinham ido pelos ares. Podia acontecer outra vez. A gente só fica sabendo que um ataque é 'apenas uma batida de reconhecimento' depois que termina. Fiquei de pé, do lado de fora, ao lado de outros soldados recém-chegados e observava homens berrando, correndo seminus em várias direções. Caminhões passavam em alta velocidade, alguns com luzes giratórias iguais às dos carros-patrulha da polícia. Por entre estridentes e nervosos disparos de M-16, eu podia ouvir o matraquear de metralhadoras pesadas, num som profundo e metódico. Clarões irrompiam no alto. Recobriam tudo com uma luz fria, trêmula.

Ninguém vinha nos dizer o que estava acontecendo. Não tínhamos recebido nosso equipamento de combate, portanto não possuíamos armas, munições, coletes à prova de balas, nem sequer um capacete de aço. Estávamos indefesos. E ninguém sabia nem se importava com isso. Haviam se esquecido de nós - ou, para ser mais exato, haviam se esquecido de mim. Naquele lugar todo, não havia uma única pessoa pensando em mim, pensando assim, meu Deus, é melhor eu ir até lá dar uma olhada e ver se está tudo bem com o Tenente Wolff! Não. Eu não estava no pensamento de ninguém. E compreendi que isso era verdade não só ali mas em todo e qualquer centímetro quadrado daquele país. Não havia uma única pessoa ali preocupada em saber se eu estava vivo ou morto. Talvez alguns corações mais brandos se importassem, em abstrato, mas era meu destino ser um indivíduo concreto e, como indivíduo, havia, a meu respeito, um indiscutível e completo desinteresse.


Não é verdade que ninguém se importava. Eu me importava. Aos meus olhos, parecia que eu dava importância excessiva, mais do que seria decente ou adequado a um homem. Podia sentir minha vida quase como se fosse uma coisa à parte, suplicando que eu a protegesse."


Now listening: Alive and Kicking, by Simple Minds.

(Extraído de "No Exército do Faraó - Memórias da guerra perdida, de Tobias Wolff)

terça-feira, 15 de março de 2011

A Mulher de Pilatos - Lançando o Feitiço (por Antoninette May) - parte II


"Meus dedos tornaram a descansar no sistro, um instrumento a ser tocado quando se quer desafiar uma situação. Suspirei; era um caso perdido. Todos sabiam que as leis do destino estavam escritas nas estrelas... Tentar suplantar seus imperativos cósmicos era algo que ninguém nunca tinha ouvido... mas Ísis havia ajudado Cléopatra... Se tenho que arranjar um marido, por que não o que desejo?
Justo nesta hora, Pilatos deu uma olhada para trás e me viu sentada. Trocamos um olhar demorado que me aqueceu o corpo, encheu-me de excitação e reforçou minha determinação.

...

Um dia, mamãe resolveu desfrutar uma tarde em casa com Tata. Era a oportunidade pela qual vinha esperando. Raquel e eu saímos para comprar um presente de aniversário para Agripina, escolhemos um colar de contas grandes de âmbar e, em seguida, embarcamos depressa numa missão diferente.
O Iseneum de Antioquia, embora menor que o de Alexandria, me fez lembrar uma jóia delicada. Passei depressa pelos mosaicos primorosos, prometendo a mim mesma examiná-los em detalhe numa outra ocasião. Parei para ajoelhar diante de uma estátua de Ísis, murmurei algumas palavras de súplica, depois levantei para encarar a sacerdotisa idosa que veio receber-me no átrio.

- Preciso falar com seu mistagogo - expliquei.

A sacerdotisa abanou a cabeça com um sorriso lamentoso.

- Está na hora da meditação dele. Volte mais tarde, talvez esta noite.
- Não posso vir mais tarde. Tem que ser agora. É um assunto muito importante.
- Todos sempre acham que o seu assunto é "muito importante". Não creio tê-la visto aqui antes.
- É a minha primeira visita. - admiti, acrescentando: - Fiz minha iniciação em Alexandria.
- Ah, uma iniciada! - disse a sacerdotisa, olhando-me com mais interesse. - Vejo que está usando o sistro.
- Ganhei-o da suma sacerdotisa de Alexandria. Vocês têm uma cripta aqui?
- É claro que temos, e está cheia da água sagrada do Nilo. Gostaria de vê-la?
- Não, uma vez foi o bastante, mas gostaria de ver o mistagogo. A senhora pode perguntar se posso? - pedi com um olhar súplice para a mulher idosa.

Ela pensou por um instante, depois fez sinal para segui-la.

- A decisão será dele.

Meu coração disparou quando deixei Raquel no átrio e acompanhei a sacerdotisa, entrando num corredor de mármore. Se ao menos o mistagogo fosse mulher! Será que conseguiria explicar meu problema a um homem? Por mais que desejasse ajuda, seria quase um alívio caso ele se recusasse a me receber.

Não se recusou.

De estrutura franzina, o mistagogo usava uma túnica de linho branco, elegantemente talhada. Sua pele era morena-clara, e o cabelo, encaracolado e bem aparado, levemente entremeado de fios grisalhos. Perscrutei seus olhos límpidos e percebi uma certa tristeza por trás da sofisticação.

- Há um homem - comecei, hesitante. - Creio que o amo.
- Crê? - perguntou o mistagogo, elevando uma sobrancelha escura e lustrosa.
- Eu realmente o amo. - corrigi-me. Do que mais poderia se tratar? Meus primos, Druso e Nero, por mais queridos que fossem, nunca me fizeram ficar acordada à noite, pensando, especulando, desejando tocá-los. O que sentia por Pilatos não se assemelhava a nada que tivesse experimentado. Só podia ser amor.
- E ele a ama?
- Poderia amar. Sei que poderia... eu sinto isso... mas o dinheiro e a posição são importantes para ele. Todos falam de sua ambição.
O mistagogo me estudou pelo que pareceu ser muito tempo.
- Sim - disse finalmente. - Tem razão. Ele poderia amá-la, amá-la muito. Um dia, ele dependerá de você de um modo que você nem pode imaginar, mas isso não o transforma no homem certo. Há outra pessoa. Seria sensato esperar por ela.
- Não quero esperar. Quero esse homem.
Um sorriso irônico se abriu brevemente nos lábios do mistagogo.
- Então reze para Ísis.
- Preciso mais do que orações. Meus pais têm pouco dinheiro para o dote. Dizem que é um caso perdido.
- Você quer um feitiço de amor.
- Sim - murmurei.
- Você é uma jovem excepcional, dotada de vidência.
- O senhor sabe disso?
- Sei e fico surpreso por você não estar ciente do quanto os feitiços podem ser aprisionadores.
- É isso que eu quero! Quero prendê-lo. O senhor não pode me ajudar?
- Há um preço.
Abri a bolsa que levava na cintura e esvaziei seu conteúdo. Duzentos sestércios.
- São tudo o que tenho, eles e este bracelete - e tirei do pulso uma pulseira de ouro.
O mistagogo recebeu o dinheiro e a pulseira, guardando-os numa gaveta da mesa.
- Há um preço muito maior. Você o pagará depois."

Acho que não.

Now listening: Fascination, by Everything But The Girl.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Formoso Cisne

Loreenna Mckennitt, cantora e instrumentista canadense, é conhecida pelos seus discos conceituais e pela sua intimidade com a cultura celta.

O álbum "The Mask and The Mirror", de 1994, é um bom exemplo disso. Ela conta, em suas belíssimas melodias, várias histórias que se fundem em seus conceitos, levando quem está ouvindo a uma viagem mágica pela história e cultura de povos antigos, além das fábulas que também lhe servem de inspiração.

Uma das músicas do álbum, "The Bonny Swans", conta a lenda de um fazendeiro que tinha três filhas. A mais nova era enamorada de um belo rapaz e era hostilizada por sua irmã mais velha por ter seu amor correspondido. Enquanto caminhavam pela margem de um lago, a mais nova foi empurrada pela mais velha, vindo a afogar-se e se transformar em um cisne.

O cisne é resgatado por uma das irmãs, e quando chega a margem do lago transforma-se em uma harpa, cujas cordas foram feitas pelos cabelos da irmã mais nova. A linda harpa é levada à sala da casa do fazendeiro, e, como por encantamento passa a entoar sozinha as canções, denunciando a irmã mais velha por seu crime.

Nada realmente fica encoberto por muito tempo...

Segue a letra:


"A farmer there lived in the north country
A hey ho bonny o
And he had daughters one, two, three
The swans swim so bonny o
These daughters they walked by the river's brim
A hey ho bonny o
The eldest pushed the youngest in
The swans swim so bonny o

Oh sister, oh sister, pray lend me your hand
With a hey ho a bonny o
And I will give you house and land
The swans swim so bonny o
I'll give you neither hand nor glove
With a hey ho a bonny o
Unless you give me your own true love
The swans swim so bonny o

Sometimes she sank, sometimes she swam
With a hey ho and a bonny o
Until she came to a miller's dam
The swans swim so bonny o
The miller's daughter, dressed in red
With a hey ho and a bonny o
She went for some water to make some bread
The swans swim so bonny o

Oh father, oh daddy, here swims a swan
With a hey ho and a bonny o
It's very like a gentle woman
The swans swim so bonny o
They placed her on the bank to dry
With a hey ho and a bonny o
There came a harper passing by
The swans swim so bonny o

He made harp pins of her fingers fair
With a hey ho and a bonny o
He made harp strings of her golden hair
The swans swim so bonny o
He made a harp of her breast bone
With a hey ho and a bonny o
And straight it began to play alone
The swans swim so bonny o

He brought it to her father's hall
With a hey ho and a bonny o
And there was the court, assembled all
The swans swim so bonny o
He laid the harp upon a stone
With a hey ho and a bonny o
And straight it began to play lone
The swans swim so bonny o

And there does sit my father the King
With a hey ho and a bonny o
And yonder sits my mother the Queen
The swans swim so bonny o
And there does sit my brother Hugh
With a hey ho and a bonny o
And by him William, sweet and true
The swans swim so bonny o
And there does sit my false sister, Anne
With a hey ho and a bonny o
Who drowned me for the sake of a man
The swans swim so bonny o"
E o belíssimo vídeo da música, claaaaro!

domingo, 26 de dezembro de 2010

A Mulher de Pilatos - Hymen Hymenalus (Antoinette May)

"Era uma recepção discreta - apenas alguns convidados -, nada parecida com o estilo de Agripina. Por quê? - perguntei a mim mesma, porém não por muito tempo. Pilatos estava lá. Ele era tudo o que importava. (...)



Meu olhar se encontrou com o dele. Pilatos me observava. Estremeci de prazer. Quando ele me dava aquele sorriso lento, parecia que tinha um mel derretido escorrendo pelas minhas costas. Ele cumprimentou o centurião com quem conversava e, em poucos passos, atravessou a grande sala. Acomodando-se num banco almofadado junto ao meu divã, cochichou em meu ouvido:

- Dizem que, mais cedo ou mais tarde, toda mulher fica com o rosto que merece.
Intrigada acompanhei seu olhar até um canto em que mamãe entretinha os convidados, no centro de um pequeno círculo de amigos.

- Ela ainda é muito bonita - disse Pilatos.
- E bonita por dentro também - acrescentei -, mas é preciso conhecê-la para descobrir isso.

Ele fez sinal para um escravo que passava, pegou duas taças de vinho e me entregou uma.
- Você tem a beleza dela e algo mais... um toque de mistério. Ninguém sabe exatamente no que está pensando. Você tem isso e... - inclinou-se para perto, tornando a cochichar - ...talvez uma certa malícia. Às vezes acho que gosta de criar problemas só para se divertir.
- Talvez - admiti.

Atrás dele, vi Germânico aproximar-se. Carregava uma lira embaixo do braço. Que amolação! Eu não queria que ninguém nos interrompesse.
- Dispensei os malabaristas - explicou Germânico. - O pesadão deixou cair a tocha duas vezes. E, depois, o barulho que eles fazem, toda aquela gritaria... Eu gostaria que você cantasse, Cláudia, como costumava fazer na Gália. Faz muito tempo que não ouço sua voz encantadora, tempo demais.(...)

Dedilhando alguns acordes, sussurrei uma prece a Ísis e comecei. Primeiro, uma leve paródia militar que sempre divertia Germânico. Depois, ganhando confiança, uma balada popular que parodiava a fábula de Leda e seu amado cisne. Pilatos chegou mais perto, sorrindo. Desviando meus olhos dos seus, vi as expressões de tédio cortês se transformarem em surpresa. (...)"

Now listening: No Good For Me, by The Corrs.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Psico ou Psiquê?!?

O que faz um Psicólogo?



Em linhas gerais, os Psicólogos desenvolvem um trabalho de investigação do desenvolvimento físico, cognitivo, emocional e social, envolvendo os aspectos do comportamento humano, além de prestar assistência à saúde mental em hospitais, escolas, instituições privadas e públicas, etc.

Através dos atendimentos, aplicações de testes, experimentos e da escuta ativa, os Psicológicos podem formular hipóteses e coletar dados para testar a validade destas hipóteses a fim de aplicar intervenção psicológica na ajuda e solução de problemas que afligem o ser humano.

Isso é o que um Psicólogo comum faz. Não a minha eterna Psico, Dayana Ferraz (CRP - 02/14404)!

Ela é única, embora ela mesma não acredite muito nisso. Às vezes, precisa que nós a lembremos disso, o tempo todo. Sem contar que sabe ser infinitamente chata quando quer. Mas é de um coração sublime, ímpar, enorme. Por esta razão, fiz a pergunta-título do post...

Psiquê (em grego: Ψυχή, Psychē) é uma personagem da mitologia grega, personificação da alma.

Seu mito é narrado no livro O Asno de Ouro de Apuleio, que a cita como uma bela mortal por quem Eros, o deus do amor, se apaixonou. Tão bela que despertou a fúria de Afrodite, deusa da beleza e do amor, mãe de Eros - pois os homens deixavam de frequentar seus templos para adorar uma simples mortal.

A deusa mandou seu filho atingir Psiquê com suas flechas, fazendo-a se apaixonar pelo ser mais monstruoso existente. Mas, ao contrário do esperado, Eros acaba se apaixonando pela moça - acredita-se que tenha sido espetado acidentalmente por uma de suas próprias setas. E os dois se casam.



Por causa da inveja de suas irmãs, Psiquê perde seu amado esposo. Implora o perdão de Afrodite, que lhe aflige a alma com quatro tarefas praticamente impossíveis de ser cumpridas (Sogra é foda, mesmo sendo Afrodite! Taquipariu!). Ajudada pelos deuses Ceres, Perséfone e Hermes, ela consegue cumprir sua tarefa e, além de ter o perdão da cobra, ops, da sogra, e reconquistar o seu amado, ainda ganha a imortalidade (Bicha de Sorte!).

Em grego "psiquê" significa tanto "borboleta" como "alma". Uma alegoria à imortalidade da alma, como a borboleta que depois de uma vida rastejante como lagarta, flutua na brisa do dia e torna-se um belo aspecto da primavera. É considerada a alma humana purificada pelos sofrimentos e preparada para gozar a pura e verdadeira felicidade.



Minha amiga querida, minha eterna Psico, você é uma linda borboleta e está destinada ao amor. Pode ter certeza disso.

Feliz Aniversário! Amo você.

- By Melonella -

Now listening: Stars, by The Cranberries. "I love you just the way you are"...


sábado, 4 de dezembro de 2010

A Mulher de Pilatos - Lançando o Feitiço (Antoinette May)




Antioquia - no oitavo ano do reinado de Tibério (ano 22 da Era Comum)

Ao abraçar Druso, meu olhar vagou sobre seu ombro até um canto em que meus pais conversavam com um homem que nunca tinha visto antes. Ele deveria ter uns 27 anos, uns bons 10 a mais que eu. Esbelto, mas de ombros largos, tinha no porte um charme descontraído. Elegante e belo como um jovem leopardo. Estava olhando para mim nesse momento, risonho, muito confiante.

- Quem é aquele? - perguntei a Druso.
- Nem pense nisso.

Recuei, olhando surpresa para meu primo.

- Dizem que é um caça-dotes e que aprecia demais as mulheres.
- É mesmo?

Afastei-me de Druso e me aproximei lentamente do recém-chegado, prendendo a respiração e arqueando as costas. Júlia e Druscila andavam desse jeito o tempo todo, eu só estava começando a praticar.

- Pôncio Pilatos, um centurião que acabou de regressar da Pátria - meu pai apresentou.

O centurião acenou com a cabeça, sorrindo para mim.

- Vim trazer uma mensagem. Seu pai teve a gentileza de me convidar para ficar em sua festa.

Suas palavras flutuaram no ar. Perdida em seus olhos, pensei num lago azul, profundo e perigoso. Pilatos aproximou-se.

N.B.: O meu Pilatos tem olhos verdes, mas tudo bem...

- Algumas mulheres não foram feitas para ser vestais - disse.

Do que ele estava falando? Ah, não era absolutamente de mim! Olhava para o busto de Marcela, colocado num pedestal próximo. Mas então os olhos de Pilatos se deslocaram e me analisaram rapidamente da cabeça aos pés.

- Isso também não combinaria com você - completou.
- Não? - minha voz estremeceu. Respirei fundo, esperei um instante e levantei a cabeça. Era minha vez de estudá-lo.

Pilatos tinha feições proporcionais, queixo bem definido, um nariz esculpido a cinzel; os lábios eram carnudos, cobertos por rugas quase imperceptíveis. Havia nele um toque de fraqueza? Decerto que não. Um toque de cinismo, talvez. E isso não era de se esperar de um soldado?

- Não, não serviria. - repetiu com um sorriso iluminando seu rosto.

Now listening: Fascination, by Everything But The Girl.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O Velho e O Mar



Luis Antônio Aguiar, ao escrever o prefácio da 68ª edição de O Velho e o Mar, disse que este "é o livro mais popular de Ernest Hemingway. Em 1954, quando o escritor ganhou o Nobel de Literatura, O Velho e o Mar foi explicitamente mencionado como uma justificativa para o prêmio, sendo considerado uma obra prima da prosa moderna" (sic).

O livro conta a história de Santiago, um velho pescador que há 84 dias não traz nada em seu barco. No 85º dia, ele pesca um peixe-espada de tamanho descomunal, e trava uma verdadeira luta para trazê-lo, sacrificando o suor, o corpo, o espírito. Em 126 páginas, numa linguagem apaixonante e emocionada, Hemingway traz à baila assuntos como honra e honestidade, numa narrativa "dotada de profunda mensagem de fé no homem e em sua capacidade de superar as limitações a que a vida o submete"(sic).

Não pude deixar de me emocionar e me identificar com determinadas passagens do livro, que cito a vocês, meus seis leitores:

"Não tinha nenhuma consideração especial pelas tartarugas, embora tivesse andado à caça delas durante muitos anos. Davam-lhe pena, mesmo as que pesavam uma tonelada. A maior parte dos pescadores não sentia a menor compaixão pelo fato de o coração da tartaruga continuar a palpitar durante horas e horas, mesmo depois de ela morta e cortada em pedaços. Mas o velho pensava: 'Eu também tenho um coração assim e os meus pés e mãos são como os dela'."

Nota da blogueira: Chorei litros quando li este trecho.

"Deitou-se na popa com o leme seguro debaixo do braço e ficou à espera de ver no céu o resplendor da cidade. 'Mesmo assim, trago metade do peixe", pensou o velho. 'Pode ser que tenha a sorte de trazer a parte da frente. Mereço ter um pouco de sorte. Não... Você violou a sua sorte quando se afastou tanto da costa.'

- Não seja estúpido - disse em voz alta. - Não adormeça e preste atenção ao leme. Ainda pode ser que venha a ter muita sorte. Gostaria de comprar um pouco de sorte se houvesse algum lugar onde a vendessem."

N.B.: Eu também, Santiago!

" 'Mas com que poderia eu comprá-la?', perguntou em pensamento. 'Poderia comprá-la com um arpão perdido, com a faca partida ou com estas duas mãos em carne viva?'

- Talvez - respondeu em voz alta. - Você tentou comprá-la com oitenta e quatro dias no mar. Quase que lhe venderam.

'Não posso continuar a pensar nestes disparates. A sorte é uma coisa que vem de muitas formas, e quem é que pode reconhecê-la? Por mim aceitaria um bocado de sorte qual fosse a forma como viesse e pagaria o que me pedissem por ela. Gostaria de poder ver o brilho das luzes. Estou sempre desejando coisas. Mas essa é a que mais desejaria agora.' "


O livro foi meu companheiro de viagem. Recomendo demais.

Now listening: Oscilate Widly, by The Smiths.

- By Melonella -

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Cativar

"E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho que se voltou mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho.
Tu és bem bonita.
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o príncipe, estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa.
Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- O que quer dizer cativar ?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro amigos, disse. Que quer dizer cativar?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa.
Significa criar laços...
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos.
E eu não tenho necessidade de ti.
E tu não tens necessidade de mim.
Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo...
Mas a raposa voltou a sua idéia:
- Minha vida é monótona. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora como música.
E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento do trigo...
A raposa então calou-se e considerou muito tempo o príncipe:
- Por favor, cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o príncipe, mas eu não tenho tempo. Tenho amigos a descobrir e mundos a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não tem tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres uma amiga, cativa-me!
Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa.
Mas tu não a deves esquecer.
Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"

(...)
 
 
 
"Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Quis, disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! disse o principezinho.
- Vou, disse a raposa.
- Então, não sais lucrando nada!
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.
Depois ela acrescentou:
- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.
Foi o principezinho rever as rosas:
- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela á agora única no mundo.
E as rosas estavam desapontadas.
- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.
E voltou, então, à raposa:
- Adeus, disse ele...
- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...
- Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar."

Now listening: Não se esqueça de mim, by Nana Caymmi e Erasmo Carlos.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Os lilases de Hossegor - Parte III




"A casa de Juliette Desrochelles está localizada debaixo de árvores, sobre uma colina, bem pertinho dali, de pedra cinza, com telhado de telhas chatas, com um jardinzinho pequeno e um quintal maior. Tem muitas flores.

Quando Mathilde está na casa, sentada em seu carrinho, depois que terminam as súplicas, as lágrimas e as besteiras, ela pede a Juliette Desrochelles, sua futura sogra, que a empurre até o quintal, onde Manech está pintando, e que a deixe sozinha com ele por um instante. Ele foi avisado da visita. Disseram-lhe que uma moça que ele amou muito vem vê-lo. Ele pergunta seu nome, que acha bonito.

Quando Juliette Desrochelles e Sylvain se retiram, Mathilde está a vinte passos dele. O cabelo dele está negro, todo cacheado.Parece-lhe mais alto do que ela se lembrava. Ele se encontra diante de uma tela, sob um alpendre. Ela fez bem de não pintar os cílios.

Tenta aproximar-se dele, mas o caminho é de cascalho, difícil. Então ele vira a cabeça para ela e a vê. Deixa o pincel e se aproxima, e quando mais ele se aproxima, quando mais ele se aproxima, mais ela pensa que bom que não estou com os cílios pintados, ela não quer chorar mas é mais forte que ela, uma hora ela só o vê aproximar-se através das lágrimas. Enxuga-as depressa. Olha para ele. Está parado a dois passos. Ela poderia estender a mão, ele se aproximaria ainda mais, ela o tocaria. Ele está igual, mais magro, mais lindo que todos, com olhos como Germain Pire descreveu, de um azul muito pálido, quase cinza, tranquilos e doces, com algo no fundo que se debate, uma criança, uma alma massacrada.

Tem a mesma voz de antes. A primeira frase que ela ouve dele, é terrível, ele pergunta: 'Você pode caminhar?'

Ela mexe com a cabeça para dizer que não.

Ele suspira, volta à sua pintura. Ela empurra as rodas, aproxima-se do alpendre. Ele torna a voltar os olhos para ela, sorri. Diz: 'Quer ver o que estou fazendo?'

Ela mexe com a cabeça para dizer que sim.

Ele diz: 'Vou te mostrar daqui a pouco. Mas não já, ainda não está pronto.'

Então, enquanto isso, ela se encosta bem ereta em seu carrinho, cruza as mãos sobre os joelhos, fica olhando para ele.

Sim, olha, olha, a vida é longa e ainda pode carregar muito mais nas costas.

Fica olhando para ele."

Fim.


Now listening: No Good For Me, by The Corrs.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Os lilases de Hossegor - Parte II

"Dizem que as amizades que começam mal são as mais infectantes. Bénédicte e Sylvain, e até Cochicho, que mal fez um ano, logo pegaram o vírus. Quase todos os dias, Bénédicte serve o lanche. Acha bem-educadas as crianças que têm apetite. Sylvain reconhece Manech, que vai terminar o primeiro grau dali a dois anos, tem o mérito de ajudar o pai na pesca, e a mãe, que é de saúde frágil, em todos os trabalhos.

(...)

O primeiro verão, o segundo. Parece a Mathilde que foi no segundo que ela se decidiu aprender a nadar. Manech fabricou bóias de cortiça para prender seus tornozelos e foi entrando no lago, com ela agarrada em seus ombros. Ela não lembra de ter sofrido. Tinha uma sensação de alegria e de gratidão para consigo mesma como raramente sentiu. Era capaz de flutuar, de avançar, deitada de barriga, só com os braços, e até mesmo, só com os braços, de virar de costas e continuar nadando.




(...)

E no oceano, o grande, o aterrorizante oceano de ondas de estrondo, explosões de neve e de pérolas, Mathilde também entra, agarrada ao pescoço de Manech, sufocando-o, estrangulando-o, gritando de pavor e de prazer a não mais poder, empurrada, afogada, machucada, mas sempre louca para voltar lá.

Na hora de subir as dunas, na volta do banho, com Mathilde às costas, Manech não aguenta, chateia-se consigo mesmo por precisar parar e colocá-la na areia para recuperar o fôlego. Foi ali, em uma parada forçada, durante o verão de 14, alguns dias antes da guerra, que Mathilde, querendo beijá-lo no rosto para confortá-lo, deixa deslizar os lábios e, com a ajuda do capeta, beija-o na boca. Toma gosto pela coisa tão depressa que se pergunta como pôde esperar tanto tempo e ele, ora essa, fica vermelho até as orelhas, mas ela sente que ele não detesta a novidade."


(continua)


Now listening: Smoke gets in your eyes, by The Platters.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Os lilases de Hossegor




"Junho de 1910.
Mathilde tem dez anos e meio. É sexta ou sábado, ela não se lembra mais. Manech tem treze anos desde o dia 4. Está voltando da escola, de calças curtas e casaco de marinheiro, com a pasta nas costas. Pára diante da grade que circunda o jardim de Poema. Vê Mathilde pela primeira vez, sentada em seu carrinho do outro lado.

Por que ele passa na frente da villa naquela tarde, mistério. Mora além do lago de Hossegor, não tem razão alguma para fazer esse desvio. Seja como for, está ali, olha para Mathilde através das grades e depois pergunta: 'Você não pode andar?'

Mathilde faz sinal que não. Ele não acha nada a dizer, vai embora. Um minuto depois, volta. Parece chateado. Pergunta: 'Você não tem amigos?' Mathilde faz sinal que não. Ele diz, olhando para outro lado, achando aquilo muito difícil: 'Se concordar, quero ser seu amigo.' Mathilde faz sinal que não. Ele levanta a mão acima da cabeça, exclamando: 'Ah, merda!' e vai embora.

Desta vez, ele passa pelo menos três minutos sem revê-la. Quando aparece de novo do outro lado das grades, sabe Deus o que fez da pasta, está com as mãos nos bolsos, faz cara de tranquilo e útil. Diz: 'Sou forte. Poderia carregar você nas costas o dia inteiro. Sabe, eu poderia até te ensinar a nadar.' Diz: 'Eu sei como. Com bóias para segurar seus pés lá em cima.' Ela faz sinal de que não. Ele infla as bochechas e sopra o ar. Diz: 'Vou pescar com meu pai, no domingo. Eu poderia trazer uma merluza grande assim para você!' Mostra com os braços um peixe como uma baleia. 'Gosta de merluza'? Ela faz sinal que não. 'De carpa?' Mesma coisa. 'De pata de siri? A gente traz um monte mas redes.' Ela gira a cadeira e empurra as rodas, é ela que se afasta. Ele grita pelas costas dela: 'Parisiense, vai! E eu que ia me deixar fisgar. Será que eu tenho muito cheiro de peixe para você, é?' Ela dá de ombros, ignora-o, faz as rodas girarem o mais rápido possível em direção à casa. Ouve Sylvain que eleva a voz em algum lugar do jardim: 'Então, seu engraçadinho, quer levar um pontapé no traseiro, é?'

(...)

Ele volta na tarde seguinte, na mesma hora. Ela espera. Dessa vez, ele se senta na mureta, do outro lado da grade. Por um tempo, não olha para ela. Diz: 'Tenho uma porção de amigos em Soorts. Não sei por que me incomodo por sua causa.' Ela pergunta: 'É verdade que você saberia me ensinar a nadar?' Ele faz que sim com a cabeça. Ela aproxima o carrinho, toca suas costas para que ele olhe para ela. Ele tem os olhos azuis, o cabelo preto todo cacheado. Apertam cerimoniosamente as mãos através das grades."

(continua)

Extraído de  "Um domingo para sempre", de Sébastien Japrisot.

Now listening: Quelqu'un m'a dit, by Carla Bruni.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Ou isto... ou aquilo!!!



Ou isto ou aquilo
(Cecília Meireles)
Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.
Pensaram que era sacanagem, né?!? ^^
Now listening: Glittering Prize, by Simple Minds.