sexta-feira, 27 de abril de 2012

A Elise é uma boba. É sim.

O que seria da vida se não pudéssemos compartilhar. Tudo. Inclusive as bobagens.

O bobo, por Clarice Lispector. Vê se não é a cara da Elise?!?



"Das Vantagens de Ser Bobo

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo."

Amor, que nós possamos compartilhar muitas, muitas bobagens juntas!

Feliz aniversário não. Feliz vida. Feliz sempre!

Beijos,

- By Melonella -

Now listening: Kissing a Fool, by George Michael. :)

sexta-feira, 2 de março de 2012

"They call you Jezebel..."

"But I'm a shadow, I'm only a bed of blackened coal
Call myself Jezebel for wanting to leave..."
 
10000 Maniacs. Jezebel: in Our Time in Eden, 1992.
 
"Jezebel, Jezebel
Won't try to deny where she came from..."
 
Sade. Jezebel: in Promise, 1985.
 
"Then Death come knockin' on Jezebel's door and said
'Come on woman ain't you ready to go?
Of your evil deeds God's done got tired, you got to go to judgment, stand trial."
 
Recoil. Jezebel: in Liquid, 2000.
 
"They call you Jezebel
For what you like to wear
You're morally unwell
They say you'll never care for me."
 
Depeche Mode. Jezebel: in Songs Of The Universe, 2009.


Eu poderia continuar citando vários e vários trechos de músicas, cujos títulos tomam emprestado o nome da Princesa Fenícia, que foi casada com o Rei Acabe, de Israel, como resultado de uma aliança para fortalecer as relações entre os dois reinos. Segundo conta a história, a famigerada Rainha arquitetou uma verdadeira perseguição aos sacerdotes e profetas israelitas, que, para não terem suas vidas ceifadas, exilaram-se no deserto, a exemplo do profeta Elias, o seu mais ferrenho repressor.
 
Nas músicas que citei anteriormente, e em tantas outras, ela aparece tal qual o retrato pintado pela cultura popular: uma mulher sedutora, sem escrúpulos, criadora de intrigas e contendas. A psicologia moderna define essas pessoas como psicopatas, sociopatas, cínicos. Eu definiria como ladrões de consciência. Aprontam, mas conseguem inverter o quadro a seu favor, e continuam a utilizar dos seus meios torpes, mesquinhos, baratos, para iludir, enganar, ludibriar os desavisados.

Na História Antiga, Jezabel teve um fim trágico. Teve seu filho, Jorão, morto pelo profeta Jéu, e foi arremessada da janela, tendo seu sangue atingido as paredes e os cavalos. Cães que passavam na hora da confusão, devoraram seu corpo, restando apenas o seu crânio e as suas mãos. Mesmo assim, o profeta ordenou que a sepultassem como filha de reis que era, conferindo assim a Jezabel a dignidade que ela não tivera em vida.

Será esta a lei do retorno?

Será que se aplica, aos casos contemporâneos, esta tal lei do retorno?

Li no mural de uma das minhas filhas adotivas, uma mensagem que se encaixa como resposta à esta pergunta:

"Porque Deus é bom, nos deixa plantar o que quisermos. Porque Deus é justo, nós colhemos o que plantamos".

Assim seja.

Em quantas pessoas (homens e mulheres) você também identificou estas características?
 
By Melonella.
 
Now listening: Sick, by Evanescence.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Try it!

Reinaugurando o blog depois de mais de seis meses sem postar uma única linha.

Experimentar: (latim experimento, -are)
v. tr.

1. Verificar por meio de experiência.

2. Ensaiar, provar, tentar.
3. Ver se se pode conseguir.
4. Sentir, ter.
5. Receber, achar, passar por.
v. pron.
6. Adestrar-se, exercitar-se.
7. Ensaiar-se.
8. Provar as próprias forças ou faculdades.


Depois da reposição da minha aula de Dança do Ventre (Engraçado que quando se gosta de uma aula, nenhuma reposição é sacrifício, nem quando isso se dá num sábado chuvoso, depois de uma semana de viagem cansativa, e de precisar pegar dois ônibus pra poder chegar lá!), fui almoçar numa franquia de fast-food muito famosa aqui em Recife. Apanhei o cardápio das mãos da funcionária, só pra fazer o "H", mas eu já sabia o que eu ia comer, tanto que o pedido já saiu dos meus lábios automaticamente, como se eu tivesse engolido um gravador e só precisasse apertar o "play". Depois de pagar, e de apanhar a senha com o número do meu pedido, comecei a me dar conta de que nunca tinha experimentado nada diferente no cardápio com tantas opções do restaurante! Várias opções de carne, frango, peixe e camarão, com vários tipos de arroz, saladas, batatas fritas ou cozidas, legumes no vapor, feijão ou farofa, e eu planando hora pelo Medalhão, hora pelo Salmão, hora pelo Arroz de Brocólis, hora pelo Arroz à Grega, acompanhados sempre do purê e da Batata Noisette!


Quanta mesmice, não?!? Tudo isso motivado pelo medo de não gostar e aí perder o prato e o meu dinheirinho.
Algo parece familiar aí, não acha?





Não é assim com a nossa própria vida? Às vezes temos medo de experimentar determinadas coisas pelo medo de nos machucarmos. O emprego novo, num ramo totalmente diverso daquele com o qual estamos mais familiarizados, que pode nos proporcionar mais aprendizado, mais experiência, e de repente, uma melhora no orçamento. O relacionamento com pessoas de mundos diferentes, culturas diferentes. Aquela música diferente, que não ouvimos por puro preconceito, mas que pode nos render sensações impactantes. Aquela posição, ou aquela carícia que seu namorado ou namorada insiste em fazer, pra ter ou dar mais prazer, e você não topa porque gosta mesmo é do tradicional? Sexo sem compromisso, aquela bebida com nome exótico, aquela balada num sambão da periferia, que pode massagear o ego, ser gostoso e divertido, mas você é puritano demais, criado sob padrões rígidos de conduta, e só gosta de música erudita.


Voltando ao exemplo da Dança do Ventre, ontem foi a minha segunda aula. Na primeira, vi a minha professora fazer exercícios de alongamento que para mim, do alto dos meus 91 kg achava praticamente impossível fazer. Mas me permiti tentar. Na definição de "Experimentar", provei das minhas próprias forças ou faculdades. Como recompensa, meu corpo doeu menos depois de tantas sequências, passos e remelexos nos quadris. E continuo tentando. Daqui a alguns dias, ou meses, não importa, vou saber tremer o quadril direitinho, que nem a Simone Mahayla, minha professora. Enquanto esse momento não chega, vou treinando. Experimentando. Permitindo-me a novas sensações.



Now listening: I try, by Macy Gray.

domingo, 12 de junho de 2011

Post Musical - Em ritmo de São João!



Posto esta música em resposta à vida e ao tempo. Que ele se encarregue de sepultar as lembranças, mesmo as boas.



Tareco e Mariola
Composição : Petrúcio Amorim


Eu não preciso de você,
o mundo é grande o destino me espera,
não é você que vai me dar na primavera
as flores lindas que sonhei no meu verão.

Eu não preciso de você,
já fiz de tudo pra mudar meu endereço,
já revirei a minha vida pelo avesso,
juro por Deus, não encontrei voce mais não.

Cartas na mesa,
bom jogador conhece o jogo pela regra,
não sabes tu que já tirei leite de pedra,
só pra te ver sorrir pra mim não chorar.

Você foi longe,
me machucando provocou a minha ira,
só que eu nasci entre o velame e a macambira,
quem é você pra derramar meu munguzá

Eu me criei
ouvindo o golpe do martelo na poeira,
ninguém melhor que mestre Osvaldo na madeira,
com sua arte criou muito mais de dez.

Eu me criei
matando a fome com tareco e mariola,
fazendo versos dedilhados na viola
por entre os becos do meu velho Vassoural

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Quando eu fiz trinta anos...



No ano em que eu fiz trinta anos, o terrorista mais procurado do mundo, o saudita Osama Bin Laden, foi encontrado numa mansão em Abbutabad, no Paquistão, próximo à uma base militar e morto, depois de quase doze anos desde que assumira a autoria dos ataques às Torres Gêmeas do World Trade Center, nos Estados Unidos.

No ano em que eu fiz trinta anos, foram encontradas as caixas pretas do A330 da Air France, que fazia a rota Rio de Janeiro Paris (Võo 447), vitimando 228 pessoas, o que ajudaria a esclarecer um dos maiores desastres da história da aviação mundial.

No ano em que eu fiz trinta anos um terremoto, um tsunami e um desastre nuclear na usina de Fukushima quase dizimaram o Japão.

No ano em que eu fiz trinta anos, Lars Von Trier, cineasta dinamarquês, deu uma declaração infeliz no Festival de Cannes, dizendo que "entendia Hitler", durante uma coletiva.

No ano em que eu fiz trinta anos o Barcelona venceu a Liga dos Campeões numa final histórica disputada no estádio de Wembley, em Londres, contra o Manchester United, time do qual aprendi a gostar por causa do Morrissey, meu alter-ego masculino (I've been dreaming of a time wheeeeeeeeen...)

No ano em que eu fiz trinta anos, um jovem, que sofria sérios distúrbios mentais, abriu fogo contra alunos em uma escola em Realengo, no Rio de Janeiro, vitimando 12 adolescentes, deixando feridos outros seis, abrindo uma discussão maior sobre o Bullying e os seus efeitos.

No ano em que eu fiz trinta anos, Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, visitou o Brasil pela primeira vez.

No ano em que eu fiz trinta anos, a união civil entre pessoas do mesmo sexo foi aprovada pelo Governo Brasileiro.

No ano em que eu fiz trinta anos, descobriu-se uma nova droga, o Oxi, um produto entre a pasta base de cocaína e a cal, mais barata e 10 vezes mais mortal do que o crack, e isto virou uma verdadeira epidemia no meu país.

No ano em que fiz trinta anos, vi correrem boatos de enchentes semelhantes a de 1979 na minha cidade natal, Recife, espalhando o pânico entre as pessoas, mergulhando a cidade num caos generalizado.

No ano em que fiz trinta anos, vi o Sport Club do Recife, meu time do coração, fazer uma campanha pífia, ridícula, mas mesmo assim, se classificar para as finais do campeonato pernambucano. Porém, perdeu a oportunidade de ser Hexa Campeão, diante do Çanta Crui, um time da 4ª divisão do campeonato brasileiro. (Não, não foi no dia 01 de abril).

No ano em que eu fiz trinta anos, vivi uma curta, porém intensa história de amor, que me deixou em frangalhos, mas me fez refletir sobre os sentimentos (ou a falta de) alheios. Permiti-me a isto, e me magoei. Mas, como diria uma amiga querida, Vânia Medeiros, borboleta como eu, prefiro a dor a nada sentir.

No ano em que fiz trinta anos, me matriculei na minha pós-graduação dos sonhos, realizei o sonho de ensinar em cursos profissionalizantes de segurança do trabalho, saí da Compesa e fui para o Banco do Nordeste, depois de quase um ano de espera desde a homologação do concurso.

Tudo isso aconteceu no ano em que eu fiz trinta anos.

E querem saber?

Que venham os próximos trinta!

Feliz aniversário, Ericka Campos. Feliz aniversário para mim!

Amigos queridos, muito obrigada por tudo!

By Melonella.

Now listening: Maravida, by Gonzaguinha.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Papai da Cidade - Por Pedro Lazera




Você viu seu time cambalear desde o início do campeonato.
Aturou mais segunda-feiras ingratas do que qualquer um em 2011.
Viu reforços entrando por uma porta e saindo pela outra.
Você teve a pressão como a maior companheira desde a primeira rodada.
Perdeu para os pequenos, caiu contra os miúdos.
Viu a maior esperança de gols do seu time enfrentar a escuridão.
Você viu parcos momentos de bom futebol.
Vibrou a vitória contra o lanterna da competição como se fosse um título.
Viu goleiro virar atacante, viu atacante virar goleiro.
Você foi motivo de chacota para os rivais e para os orixás.
Perdeu rapidamente a chance de conquistar mais uma estrela dourada.
Você viu seus rivais triunfando, sendo notícia.
Teve que ver a pior campanha do seu time na história.
Foi a campo, enfrentou chuva, sol, cambista, briga de organizadas.
Enfrentou a distância, a internet lenta, o PFC que não passa.
Você saiu derrotado em todos os clássicos.
Viu a possibilidade real de não se classificar para as finais.
Mas você se classificou.
Aos trancos e barrancos, na corda-bamba.
Sem regularidade, sem a formação ideal.
Você se classificou.
E logo de cara, teve que enfrentar o grande favorito.
Aquele que terminou dez pontos à sua frente.
Aquele com o melhor ataque, aquele que jogava melhor.
Aquele com o grande craque da competição.
Aquele que treme.
Dentro do campo, você viu o duelo do time que estremece a terra contra o time que estremece as pernas.
Fora de campo também.
De repente, você ficou rico.
Disseram que você comprou jogador, comprou juiz, comprou trinta e nove campeonatos.
A única coisa que você comprou foi a briga.
Acreditou, vibrou, viu o tempo parar.
Você viu o Rei Carlos Magnum Trinta e Oito ser coroado mais uma vez o Rei de Pernambuco.
Viu a bola de Bruno Mineiro passar por cima do goleiro.
A mesma bola que ele, com as pernas trêmulas, entregou.
Você viu um gol legítimo ser anulado.
Viu o choro.
Nas arquibancadas rosas, na coletiva de imprensa, nas redes sociais.
Você viu milhares de alvirrubros entrarem para a lista de pessoas desaparecidas.
Haja caixa de leite pra caber a foto de todo mundo.
Você viu o fenômeno da telefonia. Alvirrubros perderam seus números de telefone, as baterias acabaram, os celulares foram esquecidos em casa.
O twitter alvirrubro baleiou, gente cometeu orkutcídio, desistiu do facebook.
Você já viu isso antes. Trinta e nove vezes.
Você lutou, sofreu, e por tradição, venceu.
Mas você está com os pés no chão.
Porque sabe que é assim que se comportam os grandes.
E o mais importante.
Diferente de outros, você sabe que um campeonato só se comemora no final.

Torcedor da Barbie: se eu fosse você, nunca mais colocava o carro na frente dos bois. Ou melhor: do boi.

Sopas - Por Rubem Alves




"Se Deus me dissesse para escolher a comida que eu iria comer no céu, por toda a eternidade, eu não teria um segundo de hesitação: escolheria sopa. Camarão, picanha maturada, salmão à Dali, os pratos mais refinados: tudo me seria insuportável após umas poucas repetições. Mas não é assim com as sopas. Posso tomar sopa por toda a eternidade, sem me cansar.

Minha relação com as sopas é mais que gastronômica: é uma relação de ternura. Elas me reconduzem à cozinha de minha casa de menino, ao fogão de lenha, às tardes de inverno. A janta (janta, mesmo; jantar é coisa de rico) era servida às 5 da tarde. Ah! Uma sopa quente que se toma numa tarde fria é uma lareira que se acende no estômago. O calor, aos poucos, se espalha pelo corpo. Com umas gotinhas de pimenta, então, ele se transforma em suor, e se a gente não usa o guardanapo a tempo, as gotas de suor na testa acabam por cair no prato da sopa...

Para mim a sopa é um sacramento de intimidade: um objeto físico, presente, no qual vive uma felicidade que se teve, ausente. A sopa quente me transporta para outros lugares, outros tempos. Faço e gosto de sopas frias. Sopa fria de maçã, por exemplo, tem um sabor exótico. Agrada-me ao paladar. Mas falta a essas sopas sofisticadas o elemento sacramental: elas não me levam a lugar algum. Falta-lhes o calor para me reconduzir ao espaço de intimidade.

Sopa é comida de pobre. Sopa fina, creme de aspargos, creme de palmito, sopa gelada de maçã, é nobreza posterior. As sopas fundamentais se fazem com sobras. Sobra, é só pobre quem guarda. Sopa é comida de guerra, de fome, quando qualquer raspa de comida é bem precioso, que não pode ser perdido. Rico não guarda sobra. Não precisa. É humilhante. Sobra de rico vai para o lixo. Sobra de pobre vai para o caldeirão de sopa. As sopas fundamentais se fazem com sobras, destinadas ao lixo. A sopa é uma poção mágica por meio da qual o que estava perdido é salvo da perdição e reconduzido à circulação da vida e do prazer.

A imaginação de Bachelard diz que a matéria também imagina. A água imagina arcos-íris. As sementes imaginam flores e árvores. O mármore imagina ‘Beijos’ (Rodin) e Pietás (Miguel Ângelo). O rios imaginam nuvens (Heládio Brito). As comidas também imaginam. O churrasco imagina espetos, facas, garfos: objetos fálicos, masculinos, infernais. O churrasco precisa de perfurações, cortes, dilacerações. As mandíbulas lutam com a carne. A carne resiste.

Já a sopa é mansa. Não é para ser comida. A colher é um côncavo, um vazio, o feminino. Nada é perfurado. O gesto é o de ‘colher’: a colher colhe, sem violência. Sempre tive implicância com uma etiqueta snob, para a tomação de sopa: que o delicado é tomar a sopa com o lado da colher, e não com o bico. Ora, ora - eu argumentava - por analogia a gente deveria comer comida sólida com o lado do garfo - o que não é possível. De fato. Não é possível. É que o garfo pertence à ordem dos talheres pontiagudos, perfurantes: entram pela frente. A colher pertence à ordem dos talheres discretos e modestos: entram pelo lado, mansamente...

Salvador Dali, quando menino, sonhava em ser cozinheiro. Preferiu a pintura e produziu suas maravilhosas telas surrealistas. O realismo, em pintura, se constrói sobre o pressuposto de que as coisas são aquilo que parecem ser, nem mais e nem menos. Os olhos, diante de uma tela realista, jamais experimentam a surpresa do impossível ou do impensado. O realismo confirma aquilo que os olhos comumente vêem. O surrealismo, ao contrário, acha que aquilo que os olhos comumente vêem é muito pouco: se olharmos com atenção perceberemos que as coisas são, ao mesmo tempo, o que são e também outras: elefantes se refletem nas águas de um lago como cisnes, cenários compõem o corpo erótico de uma mulher, o corpo de Cristo é transparente e através dele se vêem mares, montanhas e barcos. O realismo confirma o criado. O surrealismo recria o criado.

As sopas são a versão culinária do surrealismo. Tivesse realizado sua vocação primeira, Salvador Dali seria um especialista em sopas. Pois as sopas se fazem negando as coisas, na sua realidade natural bruta e transformando-as por meios das relações insólitas que o caldo torna possíveis. O caldo da sopa é o meio mágico que junta no caldeirão aquilo que, na natureza, nasceu separado. Creio ser impossível catalogar as combinações possíveis: fubá, trigo, batata, alho, cebola, nabo, cenoura, tomate, ervilha, ovo, abóbora, mandioca, cará, inhame, carne, peixe, galinha, mariscos, repolho, couve, beterraba, aspargo, palmito, feijão, arroz, queijo, azeitona, pão, maçã, abacate, temperos, pimentas, orégano, tandore - uma canja verdadeira não é canja se lhe faltarem algumas folhinhas de hortelã. E é preciso não nos esquecermos que sopa é a única comida que pode ser feita com pedra, como nos é relatado numa das estórias clássicas que se conta para crianças e adultos.

Gosto das sopas, ainda, por serem elas entidades do mundo dos magos, bruxas e feiticeiros. No mundo mágico não se usa churrasco. Magos, bruxas e feiticeiros fazem suas poções em enormes caldeirões de sopa, como é o caso de Panoramix, druida do Asterix e do Obelix, que prepara sua beberragem de força imbatível num caldeirão de sopa fervente.

Prefiro as sopas rústicas - e fazê-las me dá um grande prazer. A sopa de fubá em suas múltiplas versões, o caldo verde, a canja com hortelã, a multicolorida sopa de legumes: sopas são sempre uma alegria. As sopas rústicas dão permissão para se jogar nelas o pão picado. Haverá coisa mais feliz que isso? Reuno-me com alguns amigos, às 3as. feiras, para ler poesia, ao redor de um prato de sopa.

Uma última informação: sopas são remédios maravilhosos contra depressão. Quando a sopa quente, cheirosa, colorida e apimentada, bate no estômago, a tristeza se vai e a alegria volta. Não há melancolia que resista à magia de um prato de sopa... (Concerto para corpo e alma, p. 69.)"


Now listening: Nada. Só a TV, exibindo o ABTV! :) (Na foto, a minha sopa preferida, a de tomate!)