domingo, 22 de janeiro de 2012

Try it!

Reinaugurando o blog depois de mais de seis meses sem postar uma única linha.

Experimentar: (latim experimento, -are)
v. tr.

1. Verificar por meio de experiência.

2. Ensaiar, provar, tentar.
3. Ver se se pode conseguir.
4. Sentir, ter.
5. Receber, achar, passar por.
v. pron.
6. Adestrar-se, exercitar-se.
7. Ensaiar-se.
8. Provar as próprias forças ou faculdades.


Depois da reposição da minha aula de Dança do Ventre (Engraçado que quando se gosta de uma aula, nenhuma reposição é sacrifício, nem quando isso se dá num sábado chuvoso, depois de uma semana de viagem cansativa, e de precisar pegar dois ônibus pra poder chegar lá!), fui almoçar numa franquia de fast-food muito famosa aqui em Recife. Apanhei o cardápio das mãos da funcionária, só pra fazer o "H", mas eu já sabia o que eu ia comer, tanto que o pedido já saiu dos meus lábios automaticamente, como se eu tivesse engolido um gravador e só precisasse apertar o "play". Depois de pagar, e de apanhar a senha com o número do meu pedido, comecei a me dar conta de que nunca tinha experimentado nada diferente no cardápio com tantas opções do restaurante! Várias opções de carne, frango, peixe e camarão, com vários tipos de arroz, saladas, batatas fritas ou cozidas, legumes no vapor, feijão ou farofa, e eu planando hora pelo Medalhão, hora pelo Salmão, hora pelo Arroz de Brocólis, hora pelo Arroz à Grega, acompanhados sempre do purê e da Batata Noisette!


Quanta mesmice, não?!? Tudo isso motivado pelo medo de não gostar e aí perder o prato e o meu dinheirinho.
Algo parece familiar aí, não acha?





Não é assim com a nossa própria vida? Às vezes temos medo de experimentar determinadas coisas pelo medo de nos machucarmos. O emprego novo, num ramo totalmente diverso daquele com o qual estamos mais familiarizados, que pode nos proporcionar mais aprendizado, mais experiência, e de repente, uma melhora no orçamento. O relacionamento com pessoas de mundos diferentes, culturas diferentes. Aquela música diferente, que não ouvimos por puro preconceito, mas que pode nos render sensações impactantes. Aquela posição, ou aquela carícia que seu namorado ou namorada insiste em fazer, pra ter ou dar mais prazer, e você não topa porque gosta mesmo é do tradicional? Sexo sem compromisso, aquela bebida com nome exótico, aquela balada num sambão da periferia, que pode massagear o ego, ser gostoso e divertido, mas você é puritano demais, criado sob padrões rígidos de conduta, e só gosta de música erudita.


Voltando ao exemplo da Dança do Ventre, ontem foi a minha segunda aula. Na primeira, vi a minha professora fazer exercícios de alongamento que para mim, do alto dos meus 91 kg achava praticamente impossível fazer. Mas me permiti tentar. Na definição de "Experimentar", provei das minhas próprias forças ou faculdades. Como recompensa, meu corpo doeu menos depois de tantas sequências, passos e remelexos nos quadris. E continuo tentando. Daqui a alguns dias, ou meses, não importa, vou saber tremer o quadril direitinho, que nem a Simone Mahayla, minha professora. Enquanto esse momento não chega, vou treinando. Experimentando. Permitindo-me a novas sensações.



Now listening: I try, by Macy Gray.

domingo, 12 de junho de 2011

Post Musical - Em ritmo de São João!



Posto esta música em resposta à vida e ao tempo. Que ele se encarregue de sepultar as lembranças, mesmo as boas.



Tareco e Mariola
Composição : Petrúcio Amorim


Eu não preciso de você,
o mundo é grande o destino me espera,
não é você que vai me dar na primavera
as flores lindas que sonhei no meu verão.

Eu não preciso de você,
já fiz de tudo pra mudar meu endereço,
já revirei a minha vida pelo avesso,
juro por Deus, não encontrei voce mais não.

Cartas na mesa,
bom jogador conhece o jogo pela regra,
não sabes tu que já tirei leite de pedra,
só pra te ver sorrir pra mim não chorar.

Você foi longe,
me machucando provocou a minha ira,
só que eu nasci entre o velame e a macambira,
quem é você pra derramar meu munguzá

Eu me criei
ouvindo o golpe do martelo na poeira,
ninguém melhor que mestre Osvaldo na madeira,
com sua arte criou muito mais de dez.

Eu me criei
matando a fome com tareco e mariola,
fazendo versos dedilhados na viola
por entre os becos do meu velho Vassoural

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Quando eu fiz trinta anos...



No ano em que eu fiz trinta anos, o terrorista mais procurado do mundo, o saudita Osama Bin Laden, foi encontrado numa mansão em Abbutabad, no Paquistão, próximo à uma base militar e morto, depois de quase doze anos desde que assumira a autoria dos ataques às Torres Gêmeas do World Trade Center, nos Estados Unidos.

No ano em que eu fiz trinta anos, foram encontradas as caixas pretas do A330 da Air France, que fazia a rota Rio de Janeiro Paris (Võo 447), vitimando 228 pessoas, o que ajudaria a esclarecer um dos maiores desastres da história da aviação mundial.

No ano em que eu fiz trinta anos um terremoto, um tsunami e um desastre nuclear na usina de Fukushima quase dizimaram o Japão.

No ano em que eu fiz trinta anos, Lars Von Trier, cineasta dinamarquês, deu uma declaração infeliz no Festival de Cannes, dizendo que "entendia Hitler", durante uma coletiva.

No ano em que eu fiz trinta anos o Barcelona venceu a Liga dos Campeões numa final histórica disputada no estádio de Wembley, em Londres, contra o Manchester United, time do qual aprendi a gostar por causa do Morrissey, meu alter-ego masculino (I've been dreaming of a time wheeeeeeeeen...)

No ano em que eu fiz trinta anos, um jovem, que sofria sérios distúrbios mentais, abriu fogo contra alunos em uma escola em Realengo, no Rio de Janeiro, vitimando 12 adolescentes, deixando feridos outros seis, abrindo uma discussão maior sobre o Bullying e os seus efeitos.

No ano em que eu fiz trinta anos, Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, visitou o Brasil pela primeira vez.

No ano em que eu fiz trinta anos, a união civil entre pessoas do mesmo sexo foi aprovada pelo Governo Brasileiro.

No ano em que eu fiz trinta anos, descobriu-se uma nova droga, o Oxi, um produto entre a pasta base de cocaína e a cal, mais barata e 10 vezes mais mortal do que o crack, e isto virou uma verdadeira epidemia no meu país.

No ano em que fiz trinta anos, vi correrem boatos de enchentes semelhantes a de 1979 na minha cidade natal, Recife, espalhando o pânico entre as pessoas, mergulhando a cidade num caos generalizado.

No ano em que fiz trinta anos, vi o Sport Club do Recife, meu time do coração, fazer uma campanha pífia, ridícula, mas mesmo assim, se classificar para as finais do campeonato pernambucano. Porém, perdeu a oportunidade de ser Hexa Campeão, diante do Çanta Crui, um time da 4ª divisão do campeonato brasileiro. (Não, não foi no dia 01 de abril).

No ano em que eu fiz trinta anos, vivi uma curta, porém intensa história de amor, que me deixou em frangalhos, mas me fez refletir sobre os sentimentos (ou a falta de) alheios. Permiti-me a isto, e me magoei. Mas, como diria uma amiga querida, Vânia Medeiros, borboleta como eu, prefiro a dor a nada sentir.

No ano em que fiz trinta anos, me matriculei na minha pós-graduação dos sonhos, realizei o sonho de ensinar em cursos profissionalizantes de segurança do trabalho, saí da Compesa e fui para o Banco do Nordeste, depois de quase um ano de espera desde a homologação do concurso.

Tudo isso aconteceu no ano em que eu fiz trinta anos.

E querem saber?

Que venham os próximos trinta!

Feliz aniversário, Ericka Campos. Feliz aniversário para mim!

Amigos queridos, muito obrigada por tudo!

By Melonella.

Now listening: Maravida, by Gonzaguinha.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Papai da Cidade - Por Pedro Lazera




Você viu seu time cambalear desde o início do campeonato.
Aturou mais segunda-feiras ingratas do que qualquer um em 2011.
Viu reforços entrando por uma porta e saindo pela outra.
Você teve a pressão como a maior companheira desde a primeira rodada.
Perdeu para os pequenos, caiu contra os miúdos.
Viu a maior esperança de gols do seu time enfrentar a escuridão.
Você viu parcos momentos de bom futebol.
Vibrou a vitória contra o lanterna da competição como se fosse um título.
Viu goleiro virar atacante, viu atacante virar goleiro.
Você foi motivo de chacota para os rivais e para os orixás.
Perdeu rapidamente a chance de conquistar mais uma estrela dourada.
Você viu seus rivais triunfando, sendo notícia.
Teve que ver a pior campanha do seu time na história.
Foi a campo, enfrentou chuva, sol, cambista, briga de organizadas.
Enfrentou a distância, a internet lenta, o PFC que não passa.
Você saiu derrotado em todos os clássicos.
Viu a possibilidade real de não se classificar para as finais.
Mas você se classificou.
Aos trancos e barrancos, na corda-bamba.
Sem regularidade, sem a formação ideal.
Você se classificou.
E logo de cara, teve que enfrentar o grande favorito.
Aquele que terminou dez pontos à sua frente.
Aquele com o melhor ataque, aquele que jogava melhor.
Aquele com o grande craque da competição.
Aquele que treme.
Dentro do campo, você viu o duelo do time que estremece a terra contra o time que estremece as pernas.
Fora de campo também.
De repente, você ficou rico.
Disseram que você comprou jogador, comprou juiz, comprou trinta e nove campeonatos.
A única coisa que você comprou foi a briga.
Acreditou, vibrou, viu o tempo parar.
Você viu o Rei Carlos Magnum Trinta e Oito ser coroado mais uma vez o Rei de Pernambuco.
Viu a bola de Bruno Mineiro passar por cima do goleiro.
A mesma bola que ele, com as pernas trêmulas, entregou.
Você viu um gol legítimo ser anulado.
Viu o choro.
Nas arquibancadas rosas, na coletiva de imprensa, nas redes sociais.
Você viu milhares de alvirrubros entrarem para a lista de pessoas desaparecidas.
Haja caixa de leite pra caber a foto de todo mundo.
Você viu o fenômeno da telefonia. Alvirrubros perderam seus números de telefone, as baterias acabaram, os celulares foram esquecidos em casa.
O twitter alvirrubro baleiou, gente cometeu orkutcídio, desistiu do facebook.
Você já viu isso antes. Trinta e nove vezes.
Você lutou, sofreu, e por tradição, venceu.
Mas você está com os pés no chão.
Porque sabe que é assim que se comportam os grandes.
E o mais importante.
Diferente de outros, você sabe que um campeonato só se comemora no final.

Torcedor da Barbie: se eu fosse você, nunca mais colocava o carro na frente dos bois. Ou melhor: do boi.

Sopas - Por Rubem Alves




"Se Deus me dissesse para escolher a comida que eu iria comer no céu, por toda a eternidade, eu não teria um segundo de hesitação: escolheria sopa. Camarão, picanha maturada, salmão à Dali, os pratos mais refinados: tudo me seria insuportável após umas poucas repetições. Mas não é assim com as sopas. Posso tomar sopa por toda a eternidade, sem me cansar.

Minha relação com as sopas é mais que gastronômica: é uma relação de ternura. Elas me reconduzem à cozinha de minha casa de menino, ao fogão de lenha, às tardes de inverno. A janta (janta, mesmo; jantar é coisa de rico) era servida às 5 da tarde. Ah! Uma sopa quente que se toma numa tarde fria é uma lareira que se acende no estômago. O calor, aos poucos, se espalha pelo corpo. Com umas gotinhas de pimenta, então, ele se transforma em suor, e se a gente não usa o guardanapo a tempo, as gotas de suor na testa acabam por cair no prato da sopa...

Para mim a sopa é um sacramento de intimidade: um objeto físico, presente, no qual vive uma felicidade que se teve, ausente. A sopa quente me transporta para outros lugares, outros tempos. Faço e gosto de sopas frias. Sopa fria de maçã, por exemplo, tem um sabor exótico. Agrada-me ao paladar. Mas falta a essas sopas sofisticadas o elemento sacramental: elas não me levam a lugar algum. Falta-lhes o calor para me reconduzir ao espaço de intimidade.

Sopa é comida de pobre. Sopa fina, creme de aspargos, creme de palmito, sopa gelada de maçã, é nobreza posterior. As sopas fundamentais se fazem com sobras. Sobra, é só pobre quem guarda. Sopa é comida de guerra, de fome, quando qualquer raspa de comida é bem precioso, que não pode ser perdido. Rico não guarda sobra. Não precisa. É humilhante. Sobra de rico vai para o lixo. Sobra de pobre vai para o caldeirão de sopa. As sopas fundamentais se fazem com sobras, destinadas ao lixo. A sopa é uma poção mágica por meio da qual o que estava perdido é salvo da perdição e reconduzido à circulação da vida e do prazer.

A imaginação de Bachelard diz que a matéria também imagina. A água imagina arcos-íris. As sementes imaginam flores e árvores. O mármore imagina ‘Beijos’ (Rodin) e Pietás (Miguel Ângelo). O rios imaginam nuvens (Heládio Brito). As comidas também imaginam. O churrasco imagina espetos, facas, garfos: objetos fálicos, masculinos, infernais. O churrasco precisa de perfurações, cortes, dilacerações. As mandíbulas lutam com a carne. A carne resiste.

Já a sopa é mansa. Não é para ser comida. A colher é um côncavo, um vazio, o feminino. Nada é perfurado. O gesto é o de ‘colher’: a colher colhe, sem violência. Sempre tive implicância com uma etiqueta snob, para a tomação de sopa: que o delicado é tomar a sopa com o lado da colher, e não com o bico. Ora, ora - eu argumentava - por analogia a gente deveria comer comida sólida com o lado do garfo - o que não é possível. De fato. Não é possível. É que o garfo pertence à ordem dos talheres pontiagudos, perfurantes: entram pela frente. A colher pertence à ordem dos talheres discretos e modestos: entram pelo lado, mansamente...

Salvador Dali, quando menino, sonhava em ser cozinheiro. Preferiu a pintura e produziu suas maravilhosas telas surrealistas. O realismo, em pintura, se constrói sobre o pressuposto de que as coisas são aquilo que parecem ser, nem mais e nem menos. Os olhos, diante de uma tela realista, jamais experimentam a surpresa do impossível ou do impensado. O realismo confirma aquilo que os olhos comumente vêem. O surrealismo, ao contrário, acha que aquilo que os olhos comumente vêem é muito pouco: se olharmos com atenção perceberemos que as coisas são, ao mesmo tempo, o que são e também outras: elefantes se refletem nas águas de um lago como cisnes, cenários compõem o corpo erótico de uma mulher, o corpo de Cristo é transparente e através dele se vêem mares, montanhas e barcos. O realismo confirma o criado. O surrealismo recria o criado.

As sopas são a versão culinária do surrealismo. Tivesse realizado sua vocação primeira, Salvador Dali seria um especialista em sopas. Pois as sopas se fazem negando as coisas, na sua realidade natural bruta e transformando-as por meios das relações insólitas que o caldo torna possíveis. O caldo da sopa é o meio mágico que junta no caldeirão aquilo que, na natureza, nasceu separado. Creio ser impossível catalogar as combinações possíveis: fubá, trigo, batata, alho, cebola, nabo, cenoura, tomate, ervilha, ovo, abóbora, mandioca, cará, inhame, carne, peixe, galinha, mariscos, repolho, couve, beterraba, aspargo, palmito, feijão, arroz, queijo, azeitona, pão, maçã, abacate, temperos, pimentas, orégano, tandore - uma canja verdadeira não é canja se lhe faltarem algumas folhinhas de hortelã. E é preciso não nos esquecermos que sopa é a única comida que pode ser feita com pedra, como nos é relatado numa das estórias clássicas que se conta para crianças e adultos.

Gosto das sopas, ainda, por serem elas entidades do mundo dos magos, bruxas e feiticeiros. No mundo mágico não se usa churrasco. Magos, bruxas e feiticeiros fazem suas poções em enormes caldeirões de sopa, como é o caso de Panoramix, druida do Asterix e do Obelix, que prepara sua beberragem de força imbatível num caldeirão de sopa fervente.

Prefiro as sopas rústicas - e fazê-las me dá um grande prazer. A sopa de fubá em suas múltiplas versões, o caldo verde, a canja com hortelã, a multicolorida sopa de legumes: sopas são sempre uma alegria. As sopas rústicas dão permissão para se jogar nelas o pão picado. Haverá coisa mais feliz que isso? Reuno-me com alguns amigos, às 3as. feiras, para ler poesia, ao redor de um prato de sopa.

Uma última informação: sopas são remédios maravilhosos contra depressão. Quando a sopa quente, cheirosa, colorida e apimentada, bate no estômago, a tristeza se vai e a alegria volta. Não há melancolia que resista à magia de um prato de sopa... (Concerto para corpo e alma, p. 69.)"


Now listening: Nada. Só a TV, exibindo o ABTV! :) (Na foto, a minha sopa preferida, a de tomate!)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

To Be Or Not To Be - Parte II



HAMLET: Ser ou não ser... Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes Morrer... dormir... mais nada... Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. Morrer.., dormir... dormir... Talvez sonhar... É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando alfim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos. É essa idéia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se não por temer algo após a morte - terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou - que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados? De todos faz covardes a consciência. Desta arte o natural frescor de nossa resolução definha sob a máscara do pensamento, e empresas momentosas se desviam da meta diante dessas reflexões, e até o nome de ação perdem. Mas, silêncio! Aí vem vindo a bela Ofélia. Em tuas orações, ninfa, recorda-te de meus pecados.

OFÉLIA Como tem passado, príncipe, no correr de tantos dias?

HAMLET: Muitíssimo obrigado; bem, bem, bem.

OFÉLIA: Tenho algumas lembranças suas, príncipe, que há muito devolver eu desejara; receba-as, por favor.

HAMLET: Eu, não; eu, não; eu nunca te dei nada.

OFÉLIA: O príncipe bem sabe que é verdade, e com palavras de tão doce anélito, que o valor dos presentes aumentava. Mas, evolado o aroma, agora os trago. Os brindes se empobrecem, para uma alma bem-nascida, de par com os sentimentos de quem os dá. Ei-los aqui, meu príncipe.

HAMLET: Ah! Ah! És honesta?

OFÉLIA: Como assim, príncipe?

HAMLET: És bela?

OFÉLIA Que quer dizer Vossa Alteza com isso?

HAMLET: É que se fores, a um tempo, honesta e bela, não deves admitir intimidade entre a tua honestidade e a tua beleza.

OFÉLIA Mas, príncipe, poderá haver melhor companhia para a beleza do que a honestidade?

HAMLET: Realmente, que a beleza, com o seu poder, levaria menos tempo para transformar a honestidade em alcoviteira do que esta em modificar a beleza à sua imagem. Já houve época em que isso era paradoxo; mas agora o tempo o confirma. Cheguei a amar-te.

OFÉLIA: Em verdade, o príncipe me fez acreditar nisso.

HAMLET: Não deverias ter-me dado crédito, porque a virtude não pode enxertar-se em nosso velho tronco, sem que deste não remanesça algum travo. Nunca te amei.

OFÉLIA: Tanto maior é a minha decepção.

HAMLET: Entra para um convento. Por que hás de gerar pecadores? Eu, de mim, considero-me mais ou menos honesto, mas poderia acusar-me de tais coisas, que teria sido melhor que minha mãe não me houvesse dado à luz. Sou orgulhoso, vingativo, cheio de ambição, e disponho de maior número de delitos do que de pensamentos para vesti-los, imaginação para dar-lhes forma, ou tempo para realizá-los. Para que rastejarem entre o céu e a terra tipos como eu? Todos somos consumados velhacos; não deves confiar em ninguém. Toma o caminho do convento. Onde se encontra teu pai?

OFÉLIA: Em casa, alteza

HAMLET: Que lhe fechem as portas, a fim de impedirem que faça papel de tolo, a não ser em sua própria casa. Adeus.

OFÉLIA: Ajuda-o, céu de bondade.

HAMLET: Se tiveres de casar, dou-te por dote a seguinte maldição: ainda que sejas casta como o gelo e pura como a neve, não escaparás à calúnia. Vai; entra para o convento; adeus. Ou então, se tiveres mesmo de casar, escolhe um néscio para marido, porque os assisados sabem perfeitamente em que monstros as mulheres os transformam. Para o convento, vai; e isso depressa. Adeus.

OFÉLIA: Poderes celestiais, restituí-lhe a razão!

HAMLET: Conheço muito bem vossas pinturas; Deus vos deu um rosto e arrumais outro; andais aos pulinhos e com requebros, falais cheias de esses e dais nomes indecentes às criaturas de Deus, fazendo vossa leviandade passar por inocência. Vai; não insisto, porque foi isso que me deixou louco. O que digo é que não teremos casamentos; os que já são casados, com exceção de um, hão de continuar vivos; os de mais, prosseguirão como estão. Para o convento; vai!


(Sai.) OFÉLIA: Que nobre inteligência assim perdida!

O olho do cortesão, a língua e o braço do sábio e do guerreiro, a mais florida esperança do Estado, o próprio exemplo da educação, o espelho da elegância, o alvo dos descontentes, tudo em nada! E eu, a mais desgraçada das mulheres, que saboreei o mel de suas juras musicais, ter de ver essa admirável razão perder o som, qual sino velho, essa forma sem par, a flor da idade, fanada pela insânia! Ó dor sem fim! Ter já visto o que vi, e vê-lo assim!

 
Now listening: No Good For Me, by The Corrs.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

To be, or not to be...





Cena III

Um quarto em casa de Polônio.  Entram Laertes e Ofélia.

LAERTES: Tudo o que é meu já se acha a bordo; adeus. Cara irmã, se houver ventos benfazejos e navios no porto, não te ponhas a dormir: dá notícias.

OFÊLIA: E duvida-o?

LAERTES: O que respeita a Hamlet, e seu namoro, toma-o como capricho, simples moda, violeta que a estação produziu cedo, passageira e aromosa, não durável, perfume e refrigério de um minuto, nada mais.

OFÉLIA: Nada mais?

LAERTES: Isso, mais nada. Nosso corpo, ao crescer, não ganha apenas volume e músculos; o templo expande-se, e a par, também, se alarga o espírito e a alma com seu culto interior. É bem possível que te ame agora, sem que fraude alguma lhe macule a virtude do alvedrio. Mas deves ter cautela, que os de sua posição não são donos de si mesmos. Ele é escravo do próprio nascimento; não pode, como o faz gente do povo, eleger para si, que dessa escolha depende a segurança e o bem do Estado. Daí, necessitar subordiná-la ao voto e aprovação do corpo, cuja cabeça ele é. Se te disser que te ama, cumpre à tua prudência dar-lhe crédito na medida em que seja permitido passar do verbo à ação, o que mais longe não irá do que a voz da Dinamarca. Pensa na mancha, irmã, para tua honra, se desses ao seu canto ouvido crédulo e o coração perdesses, ou se abrisses o teu casto tesouro aos seus assaltos. Cuidado, irmã! Cuidado, Ofélia amiga! Fica na retaguarda dos anseios, a coberto dos botes dos desejos. Já prodigalidade é uma virgem revelar a beleza à própria lua. Da calúnia a virtude não se livra. Muitas vezes, o verme estraga as flores primaveris, bem antes de se abrirem. No orvalho e na manhã da mocidade o vento contagioso é mais nocivo. Sê cautelosa; o medo é amparo certo. A mocidade é imiga de si mesma.

OFÉLIA: Encerrarei no peito, como guardas, essas sábias lições. Mas, caro irmão, não faças como alguns desses pastores que aconselham aos outros o caminho do céu, cheio de abrolhos, enquanto eles seguem ledos a estrada dos prazeres, sem dos próprios conselhos se lembrarem.

LAERTES: Nada receies; mas é tempo; aí vem nosso pai.

(Entra Polônio.)

Dupla bênção, graça dupla. O acaso me concede este outro adeus.

POLÔNIO: Ainda aqui, Laertes? Para bordo! O vento se acha a tergo de tua vela; já te reclamam. Vai com a minha bênção, e grava na memória estes preceitos: Não dês língua aos teus próprios pensamentos, nem corpo aos que não forem convenientes. Sê lhano, mas evita abastardares-te. O amigo comprovado, prende-o firme no coração com vínculos de ferro, mas a mão não calejes com saudares a todo instante amigos novos. Foge de entrar em briga; mas, brigando, acaso, faze o competidor temer-te sempre. A todos, teu ouvido; a voz, a poucos; ouve opiniões, mas forma juízo próprio. Conforme a bolsa, assim tenhas a roupa: sem fantasia; rica, mas discreta, que o traje às vezes o homem denuncia. Nisso, principalmente, são pichosas as pessoas de classe e prol na França. Não emprestes nem peças emprestado; que emprestar é perder dinheiro e amigo, e o oposto embota o fio à economia. Mas, sobretudo, sê a ti próprio fiel; segue-se disso, como o dia à noite, que a ninguém poderás jamais ser falso. Adeus; que minha bênção tais conselhos faça frutificar.

LAERTES: Humildemente me despeço, senhor.

POLÔNIO: O tempo é curto; vai logo, que os criados já te esperam.

LAERTES: Adeus, Ofélia; guarda o que eu te disse.

OFÉLIA: Guardei-o na memória, e a chave a levas.

LAERTES: Adeus.

(Sai.)

POLÔNIO: Que palavras, Ofélia, ele te disse?

OFÉLIA: Se o permitis, falou de lorde Hamlet.

POLÔNIO: Ah, bem pensado. Já me disseram que ele te dispensa alguma intimidade e que tu própria tens sido liberal em dar-lhe ouvidos. Se é assim, de fato - o que me revelaram à guisa de advertência - devo ser-te franco: não te comportas com a prudência que compete à minha honra e à minha filha. Que é que há entre vós dois? Fala a verdade.

OFÉLIA Senhor, ultimamente fez-me muitas propostas de afeição.

POLÔNIO: Ora, afeição! Falas tal qual mocinha inexperiente do perigo de certas situações. E tu? Acreditas em tais propostas?

OFÉLIA: Não sei como pensar, meu pai, sobre isso.

POLÔNIO: Ouve, então: é preciso que não passes de um bebê, para teres recebido como moeda corrente essas propostas. Propõe agora juízo, se não queres - e a pobre frase o agüenta - para tolo me propor.

OFÉLIA: Mas senhor, sua insistência sempre foi de moral honrosa e digna.

POLÔNIO: Moral! Bela expressão. Adiante! Adiante!

OFÉLIA: E ele soube firmar os seus protestos de amor com os mais sagrados juramentos.

POLÔNIO: Conheço isso; armadilha para tordos. Sempre que o sangue ferve, à língua os votos que a alma não regateia vêm e esplendem com mais luz que calor para extinguirem-se à só promessa frustros antes do ato. Não os tomes por fogo. Doravante restringe a tua virginal presença; náo deves pôr muito elevado preço nessas propostas, como se ordens fossem para parlamentar. Enquanto a Hamlet, confia nele até este ponto: é moço, sobre dispor de corda bem mais frouxa, para andar, do que a tua. Em suma, Ofélia, descrê dos seus protestos; são agentes que desmentem a cor do hábito externo, mendigos de desejos inconfessos, que respiram candura e santidade para melhor lograrem. Novamente e em termos simples: doravante proíbo-te que sejas perdulária de teu ócio, pondo-te a conversar com lorde Hamlet.

Vê bem que o ordeno. E agora, põe-te a andar.

OFÉLIA Ser-vos-ei obediente.

Now listening: No Good For Me, by The Corrs